06 fevereiro 2014

Viver a lenda do Tour de France a pedalar


1.  A primeira semana no Tour visto de carro com a bicicleta na bagageira

Já ando nesta região de França há alguns dias e só quando observo as formas titânicas das montanhas que me rodeiam, eu percebo:
 - Estou nos Altos Alpes e vou ter mais um desafio à minha medida. Cada vez que saio de casa e vou à procura de um trilho novo, a experiência que vivo é transcendente.
 - As montanhas não têm fim. Eu sempre quis o que é meu por direito, conquistado com a bravura de um guerreiro e a humildade de um peregrino. Neste caminho, a bicicleta tem sido uma lição permanente e é sobre ela que tenho passado alguns dos melhores anos da minha vida.
Desde a Patagónia e a Islândia que a minha bicicleta tem o peso da saudade de olhar o mundo, saudade que se esvanece quando toco em outro ponto do meu planisfério pessoal.
Adoro contemplar um ponto no mapa e poder falar sobre ele, é por isso que quando avisto um determinado local do planeta, ele diz, pedala até mim.
Escolhi celebrar os 100 anos do Tour de France e pedalar em autonomia nos Altos Alpes, cruzando as lendárias subidas do Alpe d´Huez e Col Galibier.

Joaquim Agostinho, Contador, Armstrong, muitos foram os heróis que por aqui passaram, chegou a altura de escrever mais uma parte da minha história. São palavras que abraço, que vêm no dicionário, que têm vida porque lhes dou o meu suor e me ajudam a viajar nos dias em que estiver em casa. Quando o fizer sem sair do sofá é porque já pedalei tudo o que tinha para pedalar.
Milhões de televisões estão ligadas para ver a prova mais famosa e mediática do mundo, de lycra, à beira da estrada eu vejo o pelotão a passar.


·         Subida ao Monte Ventoux (1500mts em 20kms) 15Jul13


São inúmeros os ciclistas que se vêm na estrada. No alcatrão está marcado o nome dos atletas, são palavras de incentivo.
A pendente da estrada começa nos 2.5% e aos poucos vai chegando aos 10%. Desde Bedoin são 21,5 kms desafiantes (estavam mais de 35º às 15h), foi uma dádiva a água fresca que havia no café a meio do percurso que no seu termo culmina com paisagens lunares e desertas.

·         A caminho de GAP 16Jul13
No percurso para GAP pela alta montanha, apercebi-me que percorria exactamente a mesma estrada onde iria passar o Tour.
Adorei ver os campos de alfazema coloridos de roxo, no entanto, já era tarde e o cansaço do Mont Ventoux apoderou-se de mim. Passava das 21h, e por isso optei por ficar ao longo do caminho onde encontrei uma pequena casa de pedra. Foi o meu Gite de France a preço low-cost.
Foi na 16ª etapa que vi os ciclistas passarem. A caravana publicitária que os antecede é enorme. É uma festa ver a forma como os patrocinadores embelezam os carros, passam música e lançam surpresas para quem lhes acena. A meus pés caem diversos souvenirs.
Um grupo de fugitivos aproxima-se, vêm tão rápidos que só dá tempo para tirar uma foto. Mais atrás vem o pelotão a preencher 2 faixas de rodagem pintando-as de várias cores, quando passam, tudo abana.


É impressionante a excitação que sinto naquele momento, estou tão empolgado que ao ver o filme que o casal de franceses ao meu lado fizera, só ouvia a minha voz. Tiveram de oferecer-me o filme J
O rio e o vale que me leva até Gap são lindos. Deu para tomar banho antes de me dirigir ao ponto de chegada do contra-relógio de amanhã.
Estou em Chorges. As faixas de rodagem começam a amontoar-se da pesada logística que o Tour movimenta. São camiões e camiões, carros, homens. Tudo faz número e massa nesta terra de França.
Nestes eventos, as estradas são cortadas desde muito cedo e durante muito tempo, por precaução deixo o meu carro afastado da vila e estarei logo de manhã cedo a torcer pelo team equipado na minha bicicleta.

·         A etapa de contra-relógio de Chorges a Ebrun 17Jul13


Felizmente que deixei o carro no parque longe de Chorges, o contra-relógio acaba na N4 e todos os camiões de apoio das equipas estão lá parqueados durante quilómetros.
Adorei estar em vários pontos da prova de hoje, especialmente numa curva tão fechada, onde os atletas tinham obrigatoriamente de abrandar.
Segui cedo para mais perto do Alpe D´Huez, sabia que as grandes enchentes seriam nessa zona. Mais uma vez o gps envia-me pelo caminho mais curto, e por sinal, pela montanha.
Foi agradável ir na dianteira e seguir as setas do Tour, havia momentos em que as curvas eram tão apertadas e tão ingremes que só em 1ª velocidade o Peugeot subia (o gps “encontra” cada atalho…)
Desviei para Bourg d´Oissans e amanhã sigo de bike para ver a próxima etapa. Quase não há um buraco para encostar quanto mais para colocar a tenda.
Nestes dias, praticamente tudo é permitido em nome do desporto e da festa e o resultado é: outro acampamento num sítio improvável.


Também improvável mas realidade, foi ter posto a carregar a GoPro, telemóvel, pilhas e maq. fotográfica num quadro elétrico em frente ao café Paris bem no centro da cidade.
Procuro abrigo porque chove entretanto, neste compasso de espera, a melhor maneira de dar corda ao tempo é passar os olhos por um livro que sempre me acompanha em viagem.

·         Numa das muitas subidas do Alpe d´Huez 18Jul13




Como imaginar a 100ª edição sem a subida a este topo lendário? Este ano o pelotão passará aqui 2 vezes, são momentos que se guardam para sempre.
A multidão, em número parecem formigas; em cores, representam todo o espectro. Sobem a pé e de bicicleta para, antes das 12h00, estarem numa curva deste mítico local e acima de tudo, para sentirem no corpo o esforço que é necessário a um ciclista para vencer uma montanha.
Parece um paradoxo, mas mesmo parado, não dá para estar quieto. Quem consegue resistir a tanta diversidade humana e material?!




1.  A segunda semana nos Altos Alpes com a bicicleta e o atrelado.

19Jul13 – Bourg d´Oisans - Lat. e Long. (Secret) altitude 2500 mts


Gosto de matemática simples, especialmente quando o oxigénio já não chega com frequência a esta zona do cérebro (as curvas da estrada subtraem-se e á altitude soma-se mais uns metros).
O resultado são 21 curvas, eu estou do avesso, sinto os pulmões e o coração do lado de fora com tantas voltas para atingir o topo do Alpe d´Huez. Num instante saio desta estância de esqui para o “outro lado”. Mais uma coletânea de curvas, não deu para as contar, a velocidade faz voar qualquer número da minha cabeça.
Hoje não vai dar para chegar a Chalezet, a chuva quer fazer-me companhia mas eu sei que pelo desnível do terreno que tenho pela frente, ela vai ser muito incómoda e de certeza que me vai tocar nos ossos.


Não quero, só necessito do que faz bem ao coração. Estar num estábulo rodeado de animais, moscas e cheiros a condizer, não é propriamente a melhor receita. Escrever…Muda tudo.
Virei a página, o dia é o mesmo, só passaram algumas horas e a chuva parou. Decidi continuar.
A linha sinuosa do track que o ecrã do gps mostra para os próximos quilómetros até Chazelet não era animadora.
Passei horas no caminho, em determinada altura, dei comigo desviado da GR-54. Tinha entrado em terreno privado, estava aos 2500 mts de altitude, 2 homens gritavam “prive, prive” e mandavam-me para trás.
Com uma mão no ar (outra no guiador, pés e a cabeça a girarem), fui avançando dizendo “un moment”, “un moment…”


A conversa fluía mas não era com o meu francês de há 25 anos atrás da escola. Os aperitivos que a caravana publicitária (que precede o Tour), lançou naquelas etapas onde estive, foram quanto baste para entrar no refúgio e começar a beber cerveja.
Quase bati o meu record em consumo de álcool. Felizmente tinha convite para passar ali a noite, só tinha de ir à “fiesta” com eles. De viatura, encosta abaixo durante largos quilómetros e deparei-me com outro refúgio mesmo em frente a um glaciar. Super!!!
O Collin e o Berger curtiam a música intercalando com Pastis de Marseile, marijuana e tiro ao alvo. Um deles bem que tentava acender o forno a lenha com acendalhas, cavacos, gasolina mas sempre sem sucesso.
Era uma vez um jantar, e era hora de regressar ao abrigo. Sei que eles estão habituados a este tipo de divertimento, por isso, já no Toyota pensava “ os homens são mais perigosos que os Alpes”

20Jul13 – Lat. e Long. (Secret) – algures em Le Vigneaux


Às 07h00 da manhã já tinha enfrentado duras descidas por single-tracks. Eram autênticos caminhos de cabra, só acessíveis a pé ou de bicicleta.
Julgo que naquele momento a beleza e a adrenalina superaram o perigo e a sensação de estar, mais uma vez, completamente sozinho nos Alpes.
No col du Lautaret (2058 mts), sentado numa esplanada, decido que não irei ao col du Galibier. A estrada de alcatrão não é o meu território, subo mais alto e vou mais longe em cada que caminho de terra que faço.



Grande parte da tarde limitei-me a seguir o curso do rio com água glaciar onde tentei tomar banho mas os joelhos tremiam e tive de parar esta experiência radical.
Inevitavelmente, as pequenas vilas nos Alpes estão situadas nos cumes como ninhos de águia. Aqui pode abastecer-se com água pura da montanha … É pena que o ar puro não alimente pois não existe mesmo mais nada.
No início desta aventura, ainda durante a etapa do Tour, disse a um italiano que levava comida para 4 dias.
Espantado, balbuciou  - “they have food in France, did you know it?”
Ahhhh!!! Se ele 1dia pegasse numa bike de montanha e viesse comigo, passava muita fome – pensei.
Continuo a rolar perto dos 2000 mts e mesmo assim surgem quilómetros de single-tracks, autênticos parapeitos na montanha. Ali não há rails de proteção, basta uma desatenção e a ravina convida-nos a descer.


São vários os raios que se unem numa roda. Parti um, “pas de probleme”, a roda está empenada, só preciso de andar mais devagar para chegar a mais um pedaço de terra boa para montar a tenda, oficina e cozinha.
Foram 12h a pedalar. É verdade que tenho suado muito e nesses momentos, alguns são doloroso e não os repetiria, no entanto, tenho passado bons anos da minha vida em cima de uma bicicleta.


21Jul13 –Le Vigneaux- Châtearaux Les Alpes



As rotas de btt estão muito bem marcadas no Parque Nacional Les Écrin, existem muitos percursos e todos parecem exigentes.
O meu périplo cruza grande parte deles e é normal subir até vários topos (col) no mesmo dia. Nessas alturas, o suor está para o meu corpo como o orvalho para a tenda. Ele desprende-se da pele e cai em gotas deixando um vasto rasto pelo caminho.
Deixei o corpo, deixei a bicicleta, deixei esta montanha e subi mais além. Estava cheio, preenchido pela plenitude de descobrir que o tamanho do que sou está intimamente relacionado com o tamanho do que quero.

Preciso deixar os ninhos e ir até onde habitam os homens para me abastecer em Argentiere La Besse. O único problema é que cada vez que o faço, tenho de descer 1000 mts em altitude.



Um supermercado aberto passou de necessidade a mimo. Para trás foram ficando locais que se resumem a 3 ou 4 chalets de madeira, até que, comparando a curva do track no gps com o vale que tinha á minha frente, cedo percebi que, existindo um caminho do outro lado do rio, não iria ser fácil lá chegar.
A escassos quilómetros de distância de Châteaux des Alpes, sobre um escarpado, conseguia ver a ponte de madeira. Nem com um passo de gigante lá chegava e nem o Obélix conseguia mover aquelas pedras que a natureza fez rolar encosta abaixo e que aniquilavam a passagem na GR e a minha continuação até ao destino. A única alternativa seria descer, continuar a descer e contornar toda a montanha pela N94.
Os Alpes são tão grandes que mais uma vez arranjo facilmente espaço para montar tenda e passar a 3ª noite a ouvir os insectos e a água a correr.




22Jul13 Châtearaux Les Alpes  - Chorges

Até agora os dias têm sido passados em quase isolamento. Excetuando as paisagens, poucos são os lugares onde podemos gozar aquilo a que vamos sendo habituados na vida moderna.
Ebrun é assim. Uma vila típica dos Alpes com um centro histórico maravilhoso (a partida do contra-relógio do Tour foi aqui), onde se pode ver os mercados de rua e a vida a passar estando simplesmente sentado numa esplanada.
Há dias assim, mais tranquilos. O que tenho pela frente, continua lá, tenho a certeza de vir a ter longos momentos de vento pela cara.
É bom ir escrevendo por partes, se fosse no final da etapa não se iria notar o contraste e o quanto tudo pode ser completamente diferente de um momento para o outro quando viajamos em 2 rodas.



Foi horrível sair de Ebrun. Pedra sobe pedra, caminhos íngremes para serem feitos a pé seja qual for o sentido e muitas cascatas a cada curva do caminho.
Precisava relaxar, saí do track e desci aos 1500 mts para ir ao lago Saint Apollinaire, uma atração turística inserida num cenário único de montanha. Enquanto nadava,olhei para a mancha verde de árvores bem acima de mim e compreendi que havia ali uma dobra do terreno imprópria para carregar uma bicicleta com atrelado.
Nos Alpes, um atalho pode significar ter que fazer escalada, definitivamente, a única alternativa foi seguir a N94. Nesta estrada mantinha-se gravado o nome dos atletas do Tour quando aqui percorreram a 17ª etapa de contra-relógio.
Os sons da trovoada já ecoavam desde a hora em que estivera no lago, o mau tempo vinha aí e só agora me sentia satisfeito porque,sem querer, evitei os trilhos de montanha e só tinha uma preocupação, montar tenda rapidamente.
Da tranquilidade de uma manhã de sol numa esplanada a escrever mails e a postar no facebook, à realidade de uma chuva forte em escassos minutos, é simplesmente normal em cenários assim.

23Jul13 Chorges - Bourg d´Oisans

Com chuva ou não, as noites dentro da tenda demoram sempre muito a passar.

A etapa de hoje é brindada com sol e praticamente todo o percurso vai ser finalizado por estradas secundárias (alguns tramos são coincidentes com os do Tour). Este “pormenor”, permitir-me-á, se as pernas tiverem a força da intenção, percorre ros 100 kms que me separam de Bourg d´Oisans, o meu ponto inicial de há 5 dias atrás.
Enquanto estava a acompanhar o Tour a semana passada e aqui passei de carro, é óbvio que me assustei ao ver o ponteiro da temperatura a subir, a estrada ser diminuta e a mudança engrenada ser quase sempre a 1ª.
Conhecia bem o que se escondia entre as folhagens.Para enfrentar este Golias só tinha mesmo um grande coração para bombear a bicicleta.

Epílogo


Gostar de andar de bicicleta é das melhores coisas que tenho. Eleva a minha alma e afecta positivamente tudo o que gira em meu redor.
Ser contagiado pela paixão e quase ser tocado pelo pelotão no Tour de France, era – mais – um dos meus sonhos que realizei.
Os sonhos não devem ficar na gaveta e muito menos presos à carteira. Um dia percebi que, vivendo assim, os pesadelos andavam de mãos dadas comigo.
Encontro mais facilmente a felicidade nos pedais do que dentro dos bolsos.
É por isso que pedalo e escrevo para não esquecer e para ir buscar o meu chão cada vez que encosto a bicicleta. É neste momento, nestas palavras e neste local que sou como pedalo:

Livre, autêntico e intenso. Tão natural como as paisagens que surgem diante do que consigo alcançar.
Como alguém disse “ A bicicleta é uma lição permanente de humildade.”

11 julho 2013

Tour de France - O Caminho

O vision boarder de mais um sonho.
Sonho nº 30: pedalar e ver o 100º Tour de France ao vivo.
Faltam 2 dias para a realidade




24 junho 2013

Uma viagem épica pela 100 Edição do Tour de France

Para que nunca me esqueça de pedalar com:

Alegria
Coragem
Conquista

21 junho 2013

Preparação para viver a lenda do TOUR DE FRANCE a pedalar



A ideia deste ano é celebrar os 100 anos do Tour de France e viver a paixão da bicicleta em cenários únicos de montanha.

Vou observar de perto etapas de montanha e contra-relógio para depois, em autonomia, percorrer as lendárias subidas do Alpe d'Huez 1.860mts), Telegraphe (1.588m) Galibier (2.647m) numa volta circular com a bicicleta de montanha pelos Altos Alpes (400kms) no Parque Nacional de Les Écrins.  

Joaquim Agostinho, Pantani, Contador, Armstrong, muitos foram os heróis que no passado cruzaram estas míticas subidas.

Chegou a altura de escrever mais uma parte da minha história porque as montanhas que já conquistei, são baixas demais.

15 outubro 2012

Pedalar por um sonho às portas do Círculo Polar Ártico

O Video integral desta aventura


Cada pessoa tem uma história e um sonho. Enquanto não chegam os dias que precisamos para dar a volta ao mundo, começamos com os poucos dias de férias a fazer grandes viagens.
Esta é a forma que encontrámos para ampliar o nosso horizonte e tomar o pulso à vida.




A caminho da Islândia

28Ago12 – Keflavik – Selfoss  2 Cataventos à solta na Islândia

Nós movemo-nos como este vento que corre livremente por este país gelado. Tão a Sul quanto é possível nesta latitude, percorremos a estrada da costa expostos a um inquietante e impressionante vento que nos derrubou por diversas vezes.
Ele não deixa saudades, apenas ficam marcas e recordações. Por momentos sentimo-nos transportados para o outro extremo do mundo na Patagónia onde os 8 meses que separam estas 2 aventuras, não chegam para tirar do corpo o desconforto que nos provocou.


Por todo o lado nota-se a natureza intocada com pouca vegetação, os tons escuros dos solos vulcânicos e muitas rochas de lava cobertas de musgo.

O momento do dia foi junto da Lagoa Azul, um dos pontos mais turísticos da Islândia. Nesta área geotermal, famosa pela temperatura das suas águas, enquanto uns tomavam banhos termais,cá fora nós tremíamos de frio enquanto registávamos o momento para a eternidade.


29Ago12 Selfoss-Selfoss – Atrás das montanhas em busca do Circulo de Ouro

Há muito que este país abriu as portas para o mundo. Aqui há natureza selvagem e é proibida a entrada a quem não tiver vontade de a apreciar e respeitar.Impressiona percorrer vastas áreas sem lixo ou painéis publicitários
Continuamos a Sul. Selfoss é uma perfeita paragem antes de viajarmos para o interior das highlands e conhecermos a cascata gullfoss e o geysir.


Hoje o dia foi programado para viajarmos sem bagagem. Era uma volta circular que nos levava para lá das montanhas até à fenda onde a Islândia de equilibra.
No parque nacional de Pingvellir vivemos alguns dos mais conhecidos fenómenos naturais desta ilha. Aqui é o local onde se separam as placas tectónicas americana e euroasiática criando uma fenda que se afasta 2cm por ano.


30Ago12 Selfoss-Laugarvatn-Geysir-Gullfoss-Fludir_Árnes

Qualquer que seja a direcção do nosso olhar, continuamos a contemplar paisagens de esmagadora grandiosidade que nos preenchem a cada dia que viajamos por este território tão perto do Circulo Polar Ártico.
Este último pedaço de terra virgem da Europa, marcado por exigentes condições de vida, consegue surpreender e oferecer cenários intocáveis.
Só hoje vimos um saco de plástico perdido, preso no arame de uma vedação. Poucas marcas existem da acção do homem, ao invés, os fenómenos geotermais multiplicam-se.
Percebemos agora porque chamam de círculo de Ouro ao geysir e à cascata Gullfoss? O turismo mais valioso chega em inúmeros autocarros e viaturas 4X4 equipadas com rodas “extra size”.

Não épreciso chegar a este hot-spot para sentir os cheiros que os vapores emanam do subsolo. Em povoações com pouco mais de 4 casas, é possível ver-se a terra em plena actividade diante dos nossos olhos e sentir-se covidado a ocupar todo o espaço aquecido.
Laugarvatn, Fludir ou Árnes, todas são um território mágico onde o tamanho não conta e os limites que existem são impostos pela nossa imaginação.
Estas aldeias não brilham mas valem ouro. Ainda estamos a 20 quilómetros mas já passaram mais de 10h desde que saímos. É tarde e não vamos ter tempo para recuperar e enfrentar 4 dias de total isolamento por uma estrada de montanha que atravessa 2 glaciares.


A ementa para tantos dias corre velozmente na minha mente. Compramos tudo o que julgamos vir a precisar, mas antes, percorro corredores, vasculho prateleiras, tenho hesitações…
Calei o medo e peguei na bicicleta.

31Ago12 Árnes – Rest day

As previsões do início da semana apontavam para um mau dia.Era uma “black friday” confirmada hoje à hora da aurora. Chuva, vento e um cansaço acumulado fez-nos adiar o salto para o desconhecido.
Um amigo lembrou-nos num e-mail para não nos esquecermos que estamos de férias…

01Set12 Árnes – Highland center

Damos hoje a primeira pedalada de aproximadamente 300 quiómetros em direcção ao centro da Terra,as highlands.
Para muita gente, viajar significa ir ao encontro daquilo que procuram. Nós que viajamos com a bicicleta e em autonomia, sabemos que o destino está traçado mas é incerto. O encontro com o inesperado é muitas vezes algo que acotnece com frequência.


A consulta da meteorologia no dia anterior não dispensa a que fazemos antes de partir (os ventos têm variações incríveis de direcção e intensidade em poucas horas).
Foi uma noite mal dormida devido à ansiedade e ao risco do que nos propunhamos fazer. Sabemos que cada quilómetro que andamos, começa uma nova aventura.
Não podíamos esperar mais.Saímos do Youth hostel debaixo de chuva tendo como esperança alguma falha nas previsões meteorológicas para as horas seguintes.

A expectativa de estarmos a avançar para vermos as cascatas de Hjálparfoss e Haifoss, servia-nos de consolo e alento durante a longa extensão de solos escuros “manchados” de um verde que eu diria muito típico desta região.Insípidos e molhados desde cedo, buscamos abrigo no hightland center.


E porque hoje faço anos, tudo o que desejo é horizonte para pedalar. Com a bicicleta eu encontro o equilibrio para viver.


02Set12 Highland center – Nyidalur hut

Toda a ilha é uma zona livre de stress, quando percorremos a fantasmagórica Sprengisadur route (F26), percebemos que estamos livres de tudo, até do nosso juízo.

A nossa ambição quando tracámos esta rota era atravessarmos o país de sul para norte e passarmos entre os glaciares Holsjokul e Vatnajokull.
A natureza pode ser simultaneamente dura, delicada e cruel como foi ontem, mas foi generosa connosco hoje. Permitiu-nos ver a paisagem de cascalho solto, nua, sempre do mesmo tom castanho escuro.
O silêncio ganhou espaço até ao momento que conseguimos chegar ao abrigo de montanha (hut)


03Set12 Nyidalur hut – rest day

Nem pensar em cruzar a delicada porta do abrigo. Lá fora está tudo muito diferente do que estamos habituados  e por isso mantivémo-nos no hut de Nyidalur (na base do vulcão Tungnfell) durante 2 noites por segurança. O fogão está sempre aceso e tem uma enorme panela com água pronta a aquecer quem chegue.
Para que possamos variar do esparguete e noodles (já não há muito), vamos – tentar- fazer pão. O resultado da nossa experiência a juntar ingredientes com nomes impronunciávies em que íamos provando para perceber o que era, deu num cruzamento ente o pão e o rissol. O duo de motoqueiros que dividiam o hut connosco repetiram. Significa que inventámos mais um pastel, falta só dar um nome…


O Ranger do Parque Nacional acaba de chegar ao hut e veio confirmar que somos mesmos malucos por estarmos nas highlands nesta época. Além disso, avisou que vai haver tempestade para esta noite e amanhã.


04Set12 Nyidalur hut-rest day

Lá fora estão 0ºC e as bicicletas encostadas, imóveis, sujeitas a mais um teste de resistência.
O nosso passatempo é assar batatas, ver quem passa e a forma como transpõem o rio. A nossa vez de partir vai chegar, ainda não sabemos é quando. Para já, passa a 3 noites…


05Set12 Nyidalur hut - Laugar

O som do vento acorda-me muito cedo e era semelhante ao dia anterior. Se a direcção se mantivesse de norte, significava mais um dia perdido. Inquieto, dirijo-me até à janela para observar o único ponto de referência no exterior, uma bandeira chicoteada pelo vento vindo de sul.


Estava dado o sinal de partida para mais do que uma maratona nas highlands. Ao longo do caminho, a neve mantinha-se por vastas áreas, e o vento empurrava-nos ao mesmo tempo que nos congelava as extremidades e queimava a pele.

Foi uma benção a ajuda do Ranger para transpormos 2 rios em segurança sem nunca nos molharmos. A água que nós e os Islandeses bebem vêm de rios como estes sem qualquer tipo de tratamento.
Depois de olharmos este mundo agreste em cima de uma bicicleta e de estarmos juntos da cascata dos Deuses (Godafoss) na ring road, mais uma vez sabemos que são incontáveis as pedaladas, as histórias e os medos que tivemos até chegarmos a um lugar seguro.
Optámos por um mimo para as próximas 2 noites e vamos dormir numa guest-house que tem no exterior um hot pot onde podemos “ficar de molho” várias horas numa água que vem directamente das entranhas desta terra.


06Set12 Laugar – Lago Myvatn- Laugar

Foi tanta a privação nos dias anteriores que hoje sonhámos com o pequeno almoço que teríamos pela manhã antes de nos deslocarmos para o Lago Myvatn. Este lago imenso e a área envolvente são um dos grandes tesouros europeus.
Durante a nossa volta circular, toda a paisagem é surreal. Lava, fumo a sair da terra, crateras, água e montanhas vulcânicas.
Há muitos dias que transportamos os fatos de banho na pequena mochila que vai às costas na esperança de um banho quente em qualquer charco inesperado. Hoje tivemos o nosso primeiro hot pot. Eles são um must nesta região (é como estar num jacuzzi no meio da rua com um cenário deslumbrante).

07Set12 Laugar – Akureyri

Isto de pedalar com vento não tem graça nenhuma, especialmente porque não se consegue ter momentos de contemplação parados.
Em dias assim eu sou a ponta da flecha que abre uma fissura no vento e permite que a Filomena possa andar na roda. Acabar é uma vitória mas não existe glória quando se chega ao fim.

Akureyri é a capital do norte e a 2ª cidade maior do país com 18000 habitantes. Civilização sitiada num fiorde rodeado de cumes nevados, uma escolha acertada para ficar 1 dia a descansar.


08Set12 Akureyri – rest day

09Set12 Akureyri- Varmahlíð

Mesmo a pedalar sobre a route1, os grandes horizontes continuam a fazer parte desta viagem. Andamos pelos vales e seguimos os cursos dos rios alimentados pelas águas que escorrem incessantemente das arribas que nos flanqueiam.
Podia afirmar que estou eufórico diante das infinitas possibilidades que tenho pela frente, mas não estou.Novo aviso de tempestada acompanhada de ventos fortes(23 m/s), não convida a grandes aventuras.
Por hoje não precisamos de nos preocupar, estamos bem abrigados numa quinta na aldeia de Varmahlíð com 130 pessoas.

10Set12  Varmahlíð – Rest day
Parece que o Inverno veio todo num só dia e pintou tudo de branco. O supermercado está a 300 metros mas é como se fosse uma miragem. Temos mais um dia de paragem forçada.
O nevão ganha cada vez mais terreno à medida que as horas avançam. A estrada está interdita à maioria dos veículos e por precaução as pessoas são aconselhadas a procurar alojamento.
Em pouco tempo, a senhora Inda de 81 anos que há poucas horas atrás parecia ter uma vida pacata a cochilar no seu sofá, mostrou-nos como é uma verdadeira mulher do norte.
Enquanto nos convidava para um lanche com bolos caseiros, mostrava orgulhosamente os álbuns de família; recebia os turistas que iam chegando e quando a lotação esgotou, pegou no seu jeep e conduzia estrada fora para os ir alojar.

11Set12  Varmahlíð – Saeberg (hostel)

Esta aventura já foi longe demais. Temos metade da quilometragem que planeámos, centenas de peripécias e riscos incalculados e só nos apetece chegar à capital.
Lá fora, tudo continua branco e a abanar, no entanto existe a necessidade de arrancar. Estamos confiantes nas previsões para o dia de hoje, mesmo quando aquilo que vemos, não inspira confiança.

Será um risco calculado pedalar sobre um manto branco sem saber o que vem a seguir? Eu acredito que quando coloco o pé no pedal com fé, tudo o resto se movimenta.
Começa a nevar, começa a montanha…Vários carros estão soterrados nas bermas, os flocos voam, magoam as faces e a subida ainda vai no início.

Metro a metro vamos quebrando o gelo, quem passa, tira fotografias e fica incrédulo. Nós também.Não sabemos como equilibrar as 2 rodas perante esta manifestação da natureza. As equipas de emergência patrulham a área e nós fazemos “like” sem nos apercebermos que as descidas se tornariam autênticos escorregas.
Pedimos boleia e somos resgatados até ao nosso destino. Está um sol maravilhoso e as vistas são lindas.A vida é tão bela, porque será que ando de bicicleta em sítios tão difíceis?
Pronto!!! Depois de 1h dentro de hot pot, já percebi porque não fico em casa. A minha casa é onde está o meu coração.

12 e 13Set12 Saeberg – Borganes - Reyqjavik

Estamos a oeste mas o nosso sentido é cada vez seguir para mais perto do nosso ponto inicial.
O isolamento e a ausência da mão humana continuam a ser uma das grandes referências deste país. Os horizontes até Borganes perdem a cor e parecem-se com tantos outros que já vimos noutros lugares.


Mais um dia.É provavelmente o único em que vamos pedalar menos de 100 quilómetros pelo menos esta é a indicação do track e da sinalização existente.
Decorridos 2horas a pedalar na ring road e já perto de Akranes surge-nos outro imprevisto. O túnel sob o oceano está interdito a bicicletas obrigando a um desvio superior a 40 quilómetros. Não foi um balde de água fria porque molhados já nós estávamos.
“Contornar” o fiorde psicológicamente foi uma árdua tarefa. O apelo ao desânimo sobrelevava-se relativamente à acção de continuar a fazer girar os pedais. São únicos e ficam para sempre os momentos em que o “mundo” que existe em nós, jamais nos deixará presos naquele local.

Reyqjavik não está isolada, não está no topo de uma montanha e nem sequer há nada de extremo nesta cidade excepto as vias de comunicação que lhe dão acesso.
As faixas de rodagem em driecção à cidade e a sensação que temos em cima da bicicleta é a de estarmos a pedalar numa auto-estrada.
A capital não nos cativa, é exageradamente cara e parece viver só de noite.

14 Set12 Reyqjavik – Keflavik

Felizmente que as imagens que estamos a ver e que são iguais ao primeiro dia, representam apenas uma pequena amostra deste país. Não há árvores, não há rios, não há vales, apenas uma rugosa paisagem lunar fruto da forte actividade vulcânica nesta península.
Até ao aeroporto já não contamos observar tudo aquilo enche as brochuras e panfletos que se podem encontrar e consultar espalhadas por qualquer parte desta linda ilha. Resta-nos pedalar.