12 janeiro 2015

Roma » Fátima - 3000 quilómetros de solidariedade a pedalar contra o desperdício alimentar

Roma, like a Pilgrim – Ride, Pray, Love



Sou mais do que viajante ou ciclista, sou peregrino a percorrer a essência…

É verão, estou em Roma, cidade eterna e capital da cultura europeia. Estou também na casa da Santa Sé e no berço do Império Romano, tenho muitos dias de férias para visitar algumas das infinitas possibilidades que a estrada me oferece antes de abrir novamente a porta do meu lar.


Há mais de 13 anos que percorro, de bicicleta, diversas rotas de peregrinação até Santiago. A última, em 2010, saí de Paris pela Via Turonensis para terminar no túmulo do Apóstolo. Este ano, sigo para Fátima.



 Está longe o local onde ouvi pela primeira vez que o Caminho de Santiago deve começar em casa de cada um de nós. Não contemplo a Catedral da janela do meu prédio, não vejo a sinalização na berma da estrada mas a cada novo dia nasce dentro de mim uma voz que diz: vem cá mais vezes, nunca andarás sozinho.
Para ligar Itália, França ou qualquer outro país a caminho de Compostela, Fátima ou a nossa casa, há várias possibilidades. Sigo um destino, um caminho com diferentes direcções que assenta essencialmente em importantes caminhos medievais de peregrinação.
Parto da Praça de S.Pedro sobre a Via Francigena (rota de Jerusalém), em Sarzana desviei desta via para continuar pela costa da Ligúria (via de La Costa) passando por Génova.
A Via Turonensis foi um importante caminho medieval de peregrinação a Roma e Jerusalém. Parto da Praça de S.Pedro e só me desviarei desta via em Sarzana. Nesta cidade continuarei pela costa da Ligúria (via de La Costa) passando por Génova.
Viajar não é opção de ricos. É preciso saber escolher o território onde queremos pedalar. Itália, França, Espanha, bem como outras cidades dentro da Europa comparativamente a outros destinos em outros continentes, têm um custo de vida associado muito mais elevado. Roma tem este handicap facilmente vencido com aquilo que já escrevi no passado. “ Os sonhos não devem ficar presos à carteira”.
Saí de Itália por Ventimiglia e foi em França que abracei as grandes rotas GR 653 A - Via Aurélia e GR 655- Via Tolosana que confluem com o caminho Aragonês e Francês e me transportam até ao Santuário de Fátima.



É em modo peregrino que pedalo, mantendo a mente aberta e elevando as mãos aos céus para que, mais uma vez, seja feita a minha e a Vossa vontade.
Esta é - mais - uma aventura,seria um sacrilégio deixa-la escapar.

·           A solidariedade

As pessoas são a essência de qualquer caminho, de qualquer cidade e também do conceito Refood.
É como voluntário do Refood que pedalo no meu bairro em Alfragide para recolher as sobras alimentares dos estabelecimentos de restauração e com estas evitar a fome de quem mais precisa.
Todo aquele que tem fome, pede comida porque está a precisar. Ser voluntário é, algo que preciso fazer. O Refood serve de ligação entre estas 2 necessidades e a minha vontade de espalhar esta ideia e valores por todos os bairros do planeta, surge como um processo de descoberta e renovaçao de meu envolvimento com a comunidade.
Temos em nós, o poder e o dever de mudar o mundo de quem nos rodeia. Eu comecei pelo meu bairro.

·           A viagem

31Ago14 – Cidade do Vaticano -Vigna di Valle-Lago di Bracciano-Viterbo

Estive 5 dias a visitar Roma como turista. A prioridade de hoje era sair da cidade do Vaticano cedo para evitar as multidões, os condutores italianos e o sol inclemente.
São inexistentes as indicações da via Francigena (VF) desde a praça de S.Pedro e mesmo durante longa parte do percurso. Excepcionalmente um autocolante com as cores de vermelho/branco aparece colado a um sinal de trânsito. É com a ajuda do gps que navego, os poucos peregrinos que encontro vão para Roma.
Os horizontes conseguem cativar a minha atenção, não pode ser a 100% porque ela tem de ser dividida com veículos “quase sem condutor”. A minha segurança vem essencialmente dos caminhos secundários com pouco tráfego, da muita fé e o dobro da audácia.

Um dia inteiro tem mais de 8h de pedalada e por isso dá para muita coisa. Encosto junto ao lago di Bracciano. A amostra de areia é uma linha fina e longa, a sua cor é negra e sobre ela pouco espaço sobra entre a toalha e a água.Deixo de olhar o lago e mergulho com prazer, naquele momento esqueço que ainda tenho mais de metade do percurso para percorrer.

Até há pouco tempo não conhecia Viterbo. Quando planeio uma grande viagem por etapas, a “prioridade” vai sempre para ficar alojado numa cidade com grande interesse cultural/histórico. Não precisa ser grande, aliás, a hospitalidade por vezes é inversamente proporcional à sua densidade populacional. Viterbo tem base
 etrusca, o seu núcleo urbano cheio de vida e história nem parece estar dentro de muralhas. Fico a conhecer o local onde está sepultado o único Papa de Portugal (João XXI), se não sei avaliar mais de cada pedaço das gigantes pedras que observo, é simplesmente porque a história e o conhecimento que me foi transmitido na escola, é diferente do que eu hoje vejo.




01Set14 – Viterbo – Orvieto - Acquapendente

Depois das 8h da manhã já não era permitido estar na Torreta Pio VI. O céu carregado não tardou em despejar água, parecia que caía de baldes enquanto o vento lhe dava direcção.

Tive de fazer novos ajustes na viagem, não podia desviar da VF e ir a Orvieto. Jamais abençoaria aquele local. Tinha mesmo de partir, nisto, a vontade nem sempre tem autoridade sobre o que tem de ser. Seguia para sul fugindo dos enormes lençóis de água que se iam formando na estrada.Cheguei seco, só vento ficou.Na memória, a recordação de um dia de anos purificado.
Carrego 40 anos de idade, hoje, tenho o privilégio de somar mais um. Peguei em 25 kg da minha vida, coloquei-os sobre a bicicleta e aqui estou eu a seguir a visão que me entusiasma, motiva e inspira para passar a ser a realidade que eu reclamo para cada dia, semana ou mês de cada ano.

Passa do meio-dia, sento-me numa das muitas praças que todos estes lugares têm e questiono-me.
-Vale Orvieto o esforço de mais 50km sabendo a posição fortificada onde se encontra e o ambiente que pode ficar como o do amanhecer?

Vacilo.Hesito. Como o resto do Tiramisú para ganhar serotonina.
Regresso ao passado e à da leitura do livro “Um lugar dentro de nós”, e eis que surge, nunca por acaso, uma referência à via francigena e a alguns locais imperdíveis nesta rota. Em conversa com o autor do livro, Gonçalo Cadilhe, o maior viajante português da actualidade, é-me indicado que Orvieto e Pienza serão os lugares mais empolgantes da viagem.


O esboço para este périplo há muito que estava planeado mas o trajecto definitivo sofreu muitas alterações e existem várias versões do mesmo. A VF já tem séculos, mas, cada vez que olho para o mapa, não há cidade que não esteja carregada de história e sobre a qual se torna difícil a decisão de prescindir da visita que está distante da linha traçada. Era o caso de Orvieto, de Florença e Pisa, cidades que não podia deixar de visitar.
Está lá longe, bem no cimo do monte, já a vejo. Orvieto deixa-me impressionado. A frase era clara, “nada consegue preparar-nos para o dislumbre visual da Catedral Gótica de Orvieto”. Julgo que o guia “lonely planet” ensinou bem a lição, sentia-me preparado. Num instante, no espaço permitido pela esquina de 2 edifícios, um alçado colossal de cores douradas. Senti o mesmo impacto quando estava em Petra e vi o Monastery por uma fenda da montanha.

A construção desta Catedral demorou 30 anos a planear e 3 séculos para ficar concluída. O perfeito, o belo, a dedicação e arte humana estão ali em cada milímetro.



02 Set- Acquapendente-S.Quirico-Monteroni D´Árbia

Entro na Toscânia pela porta grande. Se existe algo que me irrita quando viajo em 2 rodas, é o vento. Julga-se anfitrião de qualquer região e vem sempre ter com o ciclista.

Não sei descrever os campos de alfazema, as cores e os contornos que olho no postal que compro. Só consigo dizer que a primavera só deixou a cor castanha, os ciprestes e as casas, nada se perdeu, a beleza existe e não preciso de um pedaço de papel para o confirmar. Estou a girar pela Tuscânia, pedalando por uma terra multicolor incrivelmente linda. As paisagens de San Quirico são conhecidas pelo mundo como um exemplo da beleza da terra toscana. “L´Original è qui”- dizem os residentes.


Faz tempo que o cansaço físico habita em mim e sei que não vai desaparecer. Tenho aqui imensas distrações que me ajudam a não ficar preocupado com isso.
Parei em Ponte D ´Arbia, repouso num edifício simples mas bem equipado para receber peregrinos. Já somos 4, com o tempo junta-se uma idosa francesa que está a andar à 2000 kms( quando for velho quero ser assim).
Partilho o fim de tarde, o café e um doce com um alemão reformado de 61 anos (também já tinha 2000kms nas pernas e falava 5 linguas). É com ele que decidimos delegar o que cada um deve comprar para o jantar comunitário. Nas muitas conversas, dizia-lhe eu, a confiança é mais importante que o controlo.
Com 1kg de pasta al dente apurada com o paladar que aprendi nestes dias em Itália, juntamente com umas garrafas de vinho e temos mais um momento simples que torna este tipo de viagem inesquecíveis. A essência são sempre as pessoas, onde quer que estejamos.




03Set  - Ponte D´Arbia – Siena- San Gimignano

Nesta região tinha planeado um punhado de quilómetros para um dos dias. Não chegavam aos 30, coisa pouca para quem se desloca em bicicleta e especialmente para mim que tinha de andar 3000 kms durante um mês de férias. Ia para Siena com os olhos abertos tal e qual 2 ovos fritos, a parte do troço da VF coincidente com a estrada nacional era aflitivo e só os desvios pelo percurso cicloturístico L´Eroica me devolvem o oxigénio.



 Cheguei, estou ombro a ombro com a imponente Torre Del Mangia na piazza del Campo (há quem a considere a praça mais bonita de Itália). Deambulo pela história desta cidade que parece embalar dentro dos muros antigos, a sua arquitetura medieval, as ruas e os magestosos monumentos são um museu ao ar-livre, para mim, dispensa bem a aventura de ficar horas na fila para os visitar. Magotes de turistas, como rebanhos, seguem o guia indiferentes ao movimento que os rodeia. A campainha afasta-os, mas são “mille”, “mille”, cada um na sua direção e na maioria das vezes fico sem espaço para seguir caminho.




Muitas horas já passaram, ainda assim decido não pernoitar como previsto na Accoglienza Santa Luzia, avanço, quero estar mais perto de Florença.


Continuo a atravessar o coração da Toscânia, os campos enchem-se de oliveiras e vinhas . É por estes caminhos cénicos que vejo muitos grupos de bicicleta.No horizonte reconheço a silhueta de mais uma vila fortificada. Pela dimensão deduzo que seja Florença, ao olhar para o gps percebo que esta cidade está demasiado longe, que está afastada da VF e provavelmente não será hoje que a contemplo.



San Gimignano está cravada de torres medievais, há milhares de anos que é próspera devido à sua localização nesta rota. É sem dúvidas a “Manhatmam medieval”. Esta conotação não é segredo, existe um grande fluxo de turistas e apresenta-se muito comercial.Entrei numa das portas das muralhas e só no final percebi que o Convento S. Agostino que eu procurava se situava à direita da porta S.Mateus no outro extremo da vila. É horrível fazer gincanas ou razias às pessoas carregado de alforges. Preferia percorrer o nosso bairro alto sábado à noite.
Tenho a chave do Convento só para mim. Sou o rei da minha cela





04Set  - San Gimignano-Linati- Barberino Val D Élsa- Romita-Bargino- Florença

Vão surgindo pequenos recantos, todos eles muito silenciosos e de cotas elevadas onde posso contemplar todo o Val D´Elsa e as encostas cobertas de uva usada para o famoso vinho Chianti.
Olho para trás e recordo o momento tranquilo em Linati quando enchi e pousei o bidon de água (oferecido por um elemento da equipa Lampre no Tour France),junto da Abadia que tornava aquele local sagrado. Era íngreme demais chegar lá novamente, a água não compensava o esforço, seria inapropriado tirar algo que decidiu ficar. Ficou, marcou a minha presença.




Há muitas indicações para Firenze, quase sempre por via rápida, ou estradas nacionais. Perdi de vista a sinalética vermelha/branca e sigo paralelo ao rio e auto-estrada, não devo estar muito errado.
Hoje sei a dimensão e quanto pormenor tem a Catedral de Santa Maria del Fiore, não tive dúvidas quando a reconheci no horizonte. A sua cúpula é visitável, quem sabe as pessoas que lá se encontravam me ouviam a gritar a quilómetros de distância?!!


5set  - Rest day para visitar Pisa/Florença

O esboço para este périplo há muito que está planeado mas o trajecto definitivo tem sofrido alterações e existem várias versões do mesmo. A Via Francigena já tem séculos, mas, cada vez que olho para o mapa, não há cidade que não esteja carregada de história e sobre a qual se torna difícil a decisão de prescindir da visita que está distante da linha traçada. Afastadas deste Caminho de Santiago estão as cidades de Florença, Pisa, Veneza, Nápoles, Milão. “Só” farei o desvio para Florença, Pisa, Veneza (não resisti), de outra forma arriscaria a deambular por Itália e acabava a ficar todo o mês por aqui. Tenho a certeza que não faltariam surpresas, momentos e monumentos que me fizessem feliz.



É assim que chego a Pisa, sempre ao longo do rio Arno comboioooooo. Para um distraído que não visse para lá das margens do rio, diria que estava em Florença, ainda que distassem 80 km desta.
As cores castanhas, as igrejas românicas e góticas, as piazzas, as esplanadas para ao rio, os palácios renascentistas continuam a ser protegidos pelas enormes muralhas e torres medievais.
No seu casco antigo, junto da Porta Nuova, surge a piazza dei Miracoli com o seu mais famoso ícone. A torre inclinada de Pisa. Apaixona-me a harmonia dos arcos “gracefull” que criam um estilo contínuo, visualmente muito agradável
“Dai-me um ponto de apoio e eu moverei o mundo”, diz Galileo. Despeço-me da sua cidade





6Set - Florença-Bassa-San. Miniato-Fuccheccio-Lucca-Avenza




Hoje era sobre a estrada ou sobre o rio. As estradas de alcatrão deste país também têm raízes debaixo da superfície, não me agarram. Apanhei boleia de uma esquadra italiana, colei-me a 2 bicicicletas de roda fina. Eram ciclistas em fuga, em pouco tempo era varrido pelo pelotão que não sendo tantos como o TGV da margem sul, mesmo assim perceberam que podem utilizar a bicicleta para o refood e que me ajudaram a chegar mais perto de França.
S.Miniato e S.Miniato Basso, percebo agora que os nomes servem para diferenciar estas povoações, a mais conhecida (fortaleza) está bem aninhada no topo da colina. É pequena, no entanto representa uma rica secção da toscana. É um encontro perfeito entre o desenvolvimento moderno com as vilas tradicionais.



Cada vez que tenho de chegar bem alto percebo que o casamento da cassete com a corrente não é pacífico. Elas “passam-se” quando me coloco de pé a pedalar e gritam que é muito peso. Percebi esta situação nos dias mais difíceis, as chamadas lojas oficiais que encontrava eram apenas para reparar bicicletas citadinas muito antigas. Este era o seu mercado e para ele estavam preparados.
Quando surge algo em titânio, alto, que esta é de outro país. Só hoje foi possível trocar a cassete, mesmo assim foi necessário pedir se podiam desmontar a bicicleta em exposição. Sem mecânico na loja, mostrei do que precisava para começar a trabalhar, e ganhei 2 barras típicas da toscana e umas belas fotos com mais um casal que adorou a ideia do refood.



Com o tempo dispendido no upgrade da bicicleta, necessitava seguir caminho o mais rapidamente possível. Atravessei Lucca pelo seu Centro Histórico, cruzei as suas portas e passei sobre os seus fossos que antecedem as poderosas muralhas. Foi tudo muito rápido, receava os Alpes Alpeninos antes de descer para o Mediterrâneo e poder ver a Riviera Italiana. Tudo passa, a longa avenida de praias e complexos turísticos era completamente plana e extremamente vasta possibilitando ultrapassar a centena de quilómetros para este dia. Cheguei esgotado ao albergue S.Piedro em Avenza.



7Set- Avenza- La Spezzia-Cinque Terre – Levanto

Tudo azul pelo mar da Ligúria até La Spezzia onde montanhas caem a pique sobre o mar. O litoral daqui para a frente é de tirar o fôlego, é recortado, um verdadeiro pedaço acidentado de terra com encostas atapetadas de azeitonas e videiras de vistas memoráveis e promontórios salientes. Chama-se Cinque Terre (Monterosso, Vernazza, Cornigha, Manarola e Riomamaggiore. Unesco) e estende-se desde o porto de La Spezia até à praia do Levanto para onde vou.


Estou junto aos barcos a olhar as povoações que se elevam bem acima de mim. Carrego no pão com nutella, quando o suor escorre pela face e chega à boca, pretendo continuar a sentir o sabor a chocolate.
Que bom foi pedalar pela VF até Sarzana. Cidades históricas carregadas de monumentos proporciona-me uma riqueza histórica e cultural incrível.


Cheguei, praia do Levanto, permaneço no pequeno espaço de areal que não é privado. Começo a ter outros cenários na Via de La Costa. Não descobri o paraíso mas ando lá perto, sinto-me a subir os degraus em direção ao céu. Se algum dia me fartasse de viver, este seria um dos locais onde gostaria de viver.


08Set Levanto-Bonasola-Framura_Devi-Marina-Sestri-Levante-Génova

Impressionante!!! Quilómetros de ciclovias dentro de túneis que aproximam as povoações de Levanto. Não distam mais de 7 km entre si mas as montanhas que as separam são uma que as deixam sozinhas, isoladas junto ao mar.


Centenas de bicicletas estão presas numa das grades que separam da linha do comboio. No fim da linha, apanho um elevador que me deixa ao nível do mar entre um emaranhado de embarcações. Fico confuso e desorientado por um instante, estou num porto de pesca e não há indicações de saída.
Pergunto a um pescador que me diz algo como “a montanha é por ali e é muito difícil”.


Tenho vestido a camisola de campeão do mundo de ciclismo. É português, o meu sangue também. Desta vez, não o vou doar, felizmente não o irei derramar, irá apenas ser bombeado intensamente.
A linha do track leva-me para direções opostas às placas que dizem Genoa. Olho o gps e confio, ele leva-me para junto da costa.
Estou prostrado em frente a um túnel em Devi Marina que proíbe toda a circulação excepto carros. Fiquei siderado, é a 2 vez que acontece algo semelhante. Em 2011, na Islândia, o túnel era sob o mar, o desvio custou mais de 60 km num dia horrível de chuva.




O gps hoje dava-me a solução, voltava atrás e percorria toda a linha de montanhas para poder contornar este obstáculo. A minha vontade não era essa, liguei toda a iluminação que transporto comigo e preparei-me para o proibido.
O túnel só tem uma faixa de rodagem e serve para os 2 sentidos. O sinal vermelho dura 10 min., é o tempo de ser abordado por uma motocicleta que alerta para o perigo que vou enfrentar e que tem havido mortes por falta de respeito ao sinal. Acendem-se agora as luzes do meu cérebro. Não vou colocar e minha vida nas mãos de um condutor que não tem culpa da minha irresponsabilidade.
Apita o comboio! Entro na estação e apanho o comboio que me salva até Sestri Levante. Toda a Itália é bem servida de linhas de comboio, viaja-se mais depressa, mas não é a mesma coisa.
Continuo o sobre/desce constante característico desta costa da qual avisto praias fabulosas. Um dia não chega para estender a toalha em todas elas.



Génova é conhecida como La Superba, o seu porto comercial é o mais importante de Itália. A cidade fascina pela sua dimensão, pelos contrastes das estâncias balneares e ruas estreitas da cidade antiga.Olhando as curvas de nível e a forma como está projetado o traçado urbanístico, tem tanto de grandiosidade como tem de incoerente e de sinuosa. Foi em Génova que senti não haver espaço para pedalar.
A história da terra de Cristovão Colombo estende-se por séculos, neste momento, só precisava de saber porque construíram a Youth Hostel a 600 metros de altitude e não avisam que têm um funicular que chega perto. A pé e a pragrejar, sinto que subi 10 vezes o elevador da Glória.


 9Set Genova- Ceriale

Ás 07h00 da manhã, hora que saio do YH e já o comércio  tem as portas abertas e o trânsito de carros e pessoas não ajuda para sair da cidade. As longas avenidas, os constantes semáforos são parte desta cosmopolita urbe.
Estas cidades costeiras parecem decalcadas a papel químico, começo a ter uma sensação de deja vu à medida que vão surgindo, percorro as suas ciclovias (algumas dentro de túneis), áreas pedonais e hoje as praias estão desertas. O sol ainda não apareceu.




Passa do meio-dia, chego ao fim do mar da Ligúria (Varigotti) e a temperatura já convida ao mergulho. Ter de pagar está fora de questão, circulo um pouco mais e a água tem a mesma cor límpida, está quente e ainda bem que a praia é de cascalho. Um luxo para peregrino.
Existe muita oferta hoteleira mas nada se descobre a preço de peregrino. Acampo em parques de campismo onde a estadia pode chegar ao 24€ ou procuro uma porção de terra para colocar a tenda.
O traçado é plano permite avançar mais depressa para a fronteira de Italia.Opto por ficar no parque de campismo a meio da tarde, sei que o céu está cinzento, que o vento levantou e daqui a poucas horas, nada mais ficará..

10Set Ceriale-San Remo-Ventimiglia-Menton-Laghet

Levantar acampamento demora sempre mais que a rotina diária de colocar alforges e partir para a etapa seguinte. Continuo a não resistir à água e ás centenas de esplanadas na Riviera Italiana. Imagino que não tenho data para chegar a Portugal e deixo-me encantar por este cheiro a férias.
Já não é agosto e San Remo continua tão turístico como as expectativas que trazia. São labirintos de lojas, independentemente da direção escolhida. A ciclovia é obviamente a escolha certa para atravessar esta cidade. Perdi a conta aos quilómetros de túnel, não era escuro como os demaois, havia placards com néons azuis suspensos em tectos abobadados e que ao longe pareciam uma nave espacial. Eram as faixas de rodagem pintadas a cor de rosa que davam o toque artístico final.






França está perto, um terço do meu propósito já foi alcançado. A acolhida hoje na rua do Louvre em Menton parece que está repleta de idosos. É natural, isto é um lar… Uma troca de palavras e aceito fazer mais 15kms em montanha até Langhet.
O caminho é agora referenciado pelas marcas do Grand Randonneur que deixa a costa para se alojar na protecção que os colossais maciços dos Alpes Marítimos oferecem. Longe do vício, a monotonia, aqui, não se aplica, vejo da urbanização terraços do Mónaco, uma vista única sobre a cidade. Sou surpreendido pelo Santuário Notre Dame de Laghet, milhares de placas, fotos e objetos estão pendurados nas suas paredes para agradecer um milagre. Procuro algo relacionado com bicicletas, vejo muletas. Muitas mesmo…




 11Set Laghet-Nice-Cannes-Fréjus

Larguei o sossego do lugar e em pouco tempo chego a Nice. O tráfego é intenso, felizmente esta cidade apostou em ciclovias que nos transportam rapidamente e em segurança para bem longe de um ambiente que não é o das duas rodas.

Segue-se Cannes e mais localidades sobejamente conhecidas, definitivamente esta parte não pertence à peregrinação. Está sol, tudo ali convida ao dolce fare niente. Faltam poucos quilómetros para retornar à GR e ao objectivo de seguir as vilas históricas que acolheram os peregrinos há vários séculos atrás.
Fréjus tem um belo centro histórico, tem Catedral mas não existe albergue, resta-me procurar um parque de campismo. Extremamente caro para colocar apenas uma tenda e tomar um banho. Com a música ao vivo a durar pela noite dentro, este lugar não estava planeado no meu mapa. Quando preciso tomar uma decisão ela sabiamente aparece, amanhã sigo novamente para os Alpes, prefiro ser peregrino em detrimento de turista.

Não me recordo se nasci peregrino, atualmente, depois de já ter pedalado milhares de quilómetros pelos vários caminhos de Santiago, reconheci algo. É aqui que melhor oiço a minha alma.
Quando viajo desta forma, a ouvir uma língua que não me é familiar, a depender do meu esforço para chegar a algum lado e da maioria das vezes não saber onde comer ou dormir, percebo que o que julgava ter aprendido no passado, é insuficiente perante estes desafios.
É assim, perante o inesperado que surge um novo eu aberto às experiências.
Recordo o massif  L´estérel, um lugar montanhoso com pouca terra vegetal e uma cor castanha muito intensa. É normal haver muitos aventureiros e turistas para a apreciar,foi onde também descansei e tomei o reforço alimentar do meio-dia.


12Set Frejus –Lorgues-Saint Maximim la Saint Baume

Há vilas que são incontornáveis nesta GR, ponto final. Regresso às origens, às esplanadas nos pequenos passeios cobertos de árvores que lhes dão sombra e ambiente, à tranquilidade de um caminho que deve ser desfrutado.
Pedalo a metade da velocidade, calcorreio a pé alguns do troços mais difíceis cobertos de pedra que estão bem marcados com a sinalética da GR-653 A (Via Aurélia). No meu horizonte, Alpes, nas minhas costas ficaram os Alpes marítimos, por agora pedalo por um território fértil, a Provence Vert.


A senhora que recebia peregrinos em St. Maximin nunca atendeu as chamadas. Estive à sua porta na place Moliére e nada consegui. Abasteci, preparei-me para seguir e montar tenda algures num sítio agradável. Não tinha qualquer preocupação acrescida, gostaria apenas de carregar a bateria do telemóvel e que sabe as pilhas recarregáveis que hoje ficaram sem energia (é apenas uma precaução, se podes fazê-lo, aproveita pois não sabes a próxima oportunidade). Mais um MacDonald´s que me surge pela frente, neste momento acredito que se houvessem destes na Patagónia e Islândia, tudo teria sido mais fácil. Enquanto os meus aparelhos chupam a energia low-cost, aproveito para lavar roupa e continuar a escrever a história deste dia.


13Set Saint Maximim la Saint Baume – Aix Provence- Salon Provence – Arles

Foi tranquila a noite passada na tenda colocada algures nesta rota bem como a refeição e os mimos que comprei para me acalentarem a falta de conforto de um banho e de um local mais abrigado.
Quando estudava este itinerário e planeava as etapas não esperava que tão perto dos gigantes dos Alpes pudesse haver zonas tão planas que permitissem juntar 2 etapas numa só. Os pneus marathon plus quando rolam no alcatrão deslizam maravilhosamente.



Hoje o percurso por Aix-en-Provence e Salon-de-Provence foi duramente monótono e aborrecido. Tirei a mochila das costas , coloquei-a sobre os alforges, baixei a cabeça e comecei um autêntico contra-relógio para chegar a Arles já bem ao final da tarde.Nesta hora o cansaço já domina mais de metade do corpo, é com o gps que chego sem pensar e sem precisar de estar atento aos sinais à morada de acolhimento.É uma casa particular. Sou recebido por um senhor de 80 anos que me pergunta quem me mandou para ali? Não telefonei, não fazia ideia do que iria encontrar, simplesmente apareci.Estava ali e era peregrino. Mostrei o meu planeamento rasurado, rasgado, gasto pelo uso de muitos dias visto várias vezes ao dia.
Tudo conspira a nosso favor quando a intenção é boa. Fiquei para dormir e jantar, fiz companhia a este simpático casal que gosta de receber e de um ciclista italiano que tinha reservado alojamento.



14Set Arles – Montpellier

Arles é um dos 4 grandes pontos de entrada dos Caminhos vindos de frança. Há quem lhe chame “litle Rome”, é um eixo fulcral na ligação entre os vários caminhos e por aqui passam pessoas de todas as nacionalidades.
Na casa da família Debard recebi tudo o que precisava para me sentir um homem novo. Recuperei toda a energia, sentia-me como se tivesse começado a pedalar apenas hoje contrariando os 1200 km que já levo acumulados.Depois de muita conversa entre refeições, a atenção da dona da casa foi ainda mais longe quando recusou parte da minha contribuição monetária e me presenteou com o almoço para o caminho. É em situações como estas que ficamos desarmados pois o dinheiro não compra aquilo que nos é dado com o coração. Pego nos logos refood, escrevo uma dedicatória e ofereço como sinal de gratidão. Mais tarde, em Portugal, acabo sempre por enviar para estes “bike angels” (como chamo a quem me ajuda), uma lembrança para que sorriam uma vez mais.
Como explicar a sensação de chegarmos a um sítio, sentirmos a energia, a quietude e a paz daquele lugar? Nunca tinha ouvido falar de Saint Gilles, no entanto, uma forte vontade levou-me à abadia que viria a descobrir ser do séc. XII. Por todo o lado convites à pausa do peregrino e souvenirs a lembrar a peregrinação.
Carimbei a credencial nesta vila que é Património Mundial e é também o 4 local de peregrinação do mundo cristão após Jerusalém, Roma e Santiago.É maravilhoso ter o privilégio de conhecer todos eles e de agora pedalar em direção ao Santuário de Fátima que é português. Está longe mas é universal, também o é esta escrita e esta bicicleta, ainda que, role colada a uma terra que não é a sua.




15Set  Montpellier – S.Guilerme Desert- St.Privat-Lodeve

Montpellier merece toda a atenção que ontem não lhe consegui dar. Perco-me aqui por umas horas, gosto de deambular nestes becos antigos, ver esplanadas, igrejas e o corrupio das pessoas a dar cor à cidade. Daqui começo a Via Tolosana.


As vias partilhadas e as ciclovias facilitam a vida de toda a gente. Eu sei que me torno repetitivo, que mais posso adiantar quando Montpellier, tal como outras grandes cidades que tenho cruzado, são enormes e é tão seguro sair da zona antiga para entrar às portas da cidade pronto a tomar qualquer direção.Mais um arco do triunfo semelhante ao de Paris, estou de saída e pedalo paralelo ao aqueduto vendo filas imensas de carros e multidões de jovens (todos num só bloco) que se dirigem para a escola…
Nada do que está ao meu alcance se assemelha às paisagens dos últimos 3 dias. Contemplo caminhos de montanha, à sua volta não há eucaliptos, são milhares os hectares de pinheiros que nunca ficam para trás pois parecem não acabar.





O cenário que observo da Pont Du Diable prende-me a atenção. Recebo as boas vindas ao lendário Val de Gellone onde está situado a vila medieval de Saint Guilherm–Le–Desert. Ambas estão classificadas como Património Mundial, o que sabia sobre elas era que estavam sobre a rota. Tinha estudado o percurso, sabia que aquele era um local obrigatório do Caminho de Santiago desde o séc. X e que a altimetria a vencer estava apenas ao alcance dos que andam a pé. De início não sabia o que iria encontrar mas valeu a pena. Então e quando se está num desfiladeiro, o que esperar de algo que se chama “Col du Vent”? (Já suei mais em subidas mais difíceis, só que nas outras não trazia tantos quilómetros acumulados, já foram e esta ainda não tinha sido vencida)




Lodeve também é de base medieval, deixa-se ver bem à distância mas agora tenho a gravidade para me ajudar.

16Set  Lodeve-Lunas- St. Gervais sur Mare-Salvetat Sur Agour

Começo bem cedo ao nascer do dia pois sabia que hoje ia ser a etapa rainha da minha viagem. Durante 5h poucas vezes toquei no selim, as subidas/descidas e envolventes do Parque Natural do Haut-Languedoc tomavam conta do meu tempo. 




Via e sentia o nevoeiro, a pala do meu capacete parecia um estendal a pingar, perdi uma oportunidade de ver bem do alto, o que ao perto me desperta tanto entusiasmo.A minha preocupação era estar visível, os carros que se cruzam comigo são poucos mas ainda assim representam uma verdadeira ameaça.
Rarifica-se a presença humana por estes bosques, para mim, ainda que sozinho aqui a pedalar, a minha bicicleta lembra-me que nunca estou só. Sou um ciclista que o destino acrescentou a esta paisagem.




17Set  Salvetat Sur Agour – Anglés-Castres-Revel

Dormi mal. Os relâmpagos iluminavam o quarto e o som da chuva e trovoada inquietavam a noite. As previsões meteorológicas estavam corretas (alerta a partir das 00.00 com uma janela de tempo nublado entre as 08.00 e as 10h00.
A distâncias entre aglomerados urbanos acentua-se, é cada vez mais natural o isolamento a que sou sujeito. Entro em piloto automático por vezes e os olhos fecham-se a pedir descanso.



Passei Castres e sigo para Revel onde me encontro neste momento em mais uma estratégica paragem no centro da vila para buscar uma ligação wi-fi e o posto de turismo bem situado na praça quadrada do séc. XIV. Em seu redor, uma enorme estrutura de madeira suporta o telhado, as arcadas e a próprias casa são suportadas por vigas de madeira.
As informações que transporto comigo relativamente aos alojamentos são um pouco escassas, aqui sempre obtenho que necessito para aprimorar as etapas que planeei há meses atrás.

18Set  Revel-Canal do Midi-Toulouse-Léguevin

Existem muitos motivos para ficarmos instalados nos albergues de peregrinos, nestes casos, com uma simples conversa no dia anterior fiquei a perceber que para chegar a Toulouse era preferível seguir o Canal do Midi (mesmo estando ligeiramente afastado do Caminho de Santiago).




Segui e contornei, dezenas de quilómetros, uma margem de La Regol que ia desaguar ao canal do Midi.Não sabia de onde soprava o vento, devia vir de longe pois ainda chegava forte até mim. Tão forte que me ajudava a rolar a 40 km/h em algumas partes do percurso. Abrandei, assim chegava demasiado cedo a Toulouse. Parei, tirei fotos, apontamentos, apreciei estar naquele lugar, sabia que ia demorar uma eternidade a este ritmo escolhido por mim.
Na minha opinião, as distâncias não têm importância, respeito-as pela limitação que podem provocar na observação do território que atravesso. Não as valorizo, não são elas que ditam as fronteiras do que quero ou posso percorrer e por isso foco-me no prazer e no simples gesto de fazer girar os pedais. A magia move-se, torna vísivel e presente o que muitas vezes não se vê a quem se desloca doutro modo.
O canal do Midi capta toda a minha atenção, data de 1750, tem 63 eclusas neste troço e uma história que não vale a pena contar.Para mim, não há forma mais bonita, mais rápida, mais ecológica para chegar a Toulouse do que a bicicleta.Na margem onde rolam os meus pneus o piso está alcatroado, são muitas as pessoas que se deslocam como eu e outros tantos fazem-no a correr. A menos de 10 metros – simétricos- estão plantados plátanos (42 000) que formam uma cúpula e fazem-me lembrar a estação do Oriente em Lisboa. Estes são mais imponentes que as estruturas metálicas de Calatrava e prolongam-se numa distância que nem vale a pena contar.




Há barcos (cada vez mais e maiores), atracados ao longo do curso de água, talvez um dia regressem ao Mediterrâneo, por agora, são belas esplanadas e à noite transformam-se em alojamento.
Toulouse, que cidade viva. Sair daqui é exatamente o oposto do que contei e do que vi noutras grandes cidades, foi difícil tomar a direção certa de Léguevin e antes ainda apanhei um susto quando quase entrei numa  via rápida.



19Set  Léguevin- Gimonte-Auch_Montesquiou

Um dia de pequenas maravilhas e surpresas pelo caminho com um autêntico sobe e desce de colinas proporcionando cenários indescritíveis e também uma terrível dor de pernas.Aquela sensação de inchaço e de sentir as pernas a estoirar, parecem fogo, é como se o coração estivesse nesta parte do corpo a palpitar e pronto para saltar fora. Era assim que me sentia, deitado sobre a esteira num dos melhores parques de campismo que estive até hoje tentava buscar o conforto similar a um hotel 5*. 


Novo dia, novo fôlego, deixo-me estar deitado para lá do toque do despertador, simplesmente não parece que estou a 1cm do solo. Aguardo que nasça o sol, ainda tenho muito caminho a percorrer, preciso afrouxar o ritmo.

Vilas medievais como Gimont e Auch ficaram para trás, para sempre as imagens da Catedral de Auch vistas de longe e as arcadas e galerias em madeira que caracterizam as pequenas praças com esplanadas e pessoas destes locais.


20Set  Montesquiou-Marciac-Morlaas-Lescar




Marciac estava a 1hora de viagem, foi assim que coloquei a escrita de ontem em dia e que voltei a apreciar a arquitetura tipo  “bastide”. Entre o séc. XII e XIV, para evitar o nomadismo e aumentar a segurança, estabeleceram-se 500 vilas no sudoeste de França e todas correspondem a um modelo típico gascon. Quatro ruas principais saem da praça central e são ligadas por um reticulado de outras ruas formando um sistema retangular perfeito.



O track seguia muito perto da estrada, havia momentos em que a contornava sem no entanto trazer grandes benefícios que contribuíssem para uma bela foto. Era mais curto mas não era mais rápido para uma bicicleta. Sem abastecer, avancei estrada fora pois sabia da existência de diversas povoações.
A silhueta dos pirenéus a barrar todo o horizonte, os quilómetros sucediam-se e eu continuava a pedalar sem conseguir descobrir algo para comprar. É assim que me sinto vivo quando pedalo pelo desconhecido sei que abri uma enorme porta para o mundo e vi um espaço onde toda e qualquer coisa é possível.

21Set  Lescar-Urdos

Começa a não ser fácil encontrar palavras para descrever estas sensações, para ilustrar os tons verdes e as construções típicas deste cantinho que me deixa sempre saudades. Soam-me a familiares estas montanhas que me envolvem e ao mesmo tempo me desafiam para estar alerta com todos os sentidos.



As poucas marcas humanas desenrolam-se ao longo do vale que vai subindo até ao Col du Somport. É pouco antes, na povoação de Urdos que procuro abrigo. São frequentes as trovoadas e as grandes descargas de águas, principalmente ao final da tarde. Com dinheiro mas sem comida para comprar, cozinhei maçãs bravas depois de perceber que eram amargas e muito duras.


Já troco palavras em espanhol, está perto o meu país, faltam 1000 kms, despachar tenda/fogão e um amontoado de palavras escritas com alma…

22Set  Urdos-Col Somport-Canfranc-Villanua-Jaca.-Arrés

Esforcei-me para chegar cedo ao túnel do Somport. O sinal do gps mantinha-se sobre a nacional e eu avancei, passo o controlo de segurança e continuo…A visibilidade é imensa, tem boas bermas mas ainda assim opto por ir bem sinalizado pois sei que são 8 kms dentro da montanha. A meio do percurso vejo quatro piscas e um sem número de lâmpadas laranjas à minha frente, sou barrado pelo piquete de serviço. Tenho de inverter a marcha para França, atrás de mim, como escolta, seguem o carro dos piscas e outras máquinas à velocidade da minha bicicleta.
Volto a ligar o gps (dentro do túnel não servia de nada), diminuo o zoom e vejo as alternativas que sempre existiram e o track do caminho que devo seguir. Em Somport, lá no topo está a fronteira espanhola e uma mão cheia de pequenas habitações onde quase ia perder o prazer de as ver. Entro no refúgio Aqsa já em território espanhol para um beber um café e aquecer  antes de começar a descer. A bicicleta está solidária comigo, eu tremo, ela treme…
Reconheço a cidade de Jaca, já aqui passei aquando da travessia dos pirenéus, sem saber que tipo de percurso tinha pela frente, decido avançar para Arrés onde encontro um hospital para peregrinos cuja tradição é oferecer alojamento e alimentação aos que aqui buscam abrigo.


Falta muito para chegar ao caminho francês mas nota-se já o fluxo de peregrinos. Nesta zona de Navarra são mais os estrangeiros que os habitantes das aldeias. É um caminho duro que em nada se pode comparar ao que encontramos depois de Puente de La Reina (segundo li, esta vila não tem mais de 30 habitantes).

Arrés amanhece no cimo do monte, solitário, sem rasto de pássaros, cães e gatos e também algum vazio de peregrinos que buscam outras paragens. Este local convida a saborear o silêncio. Puro, belo, limpo, tranquilo.

 23Set  Arrés-Monreal

A neblina enche toda a paisagem, ela acaricia, humedece a terra já de si empapada pela chuva de ontem. É uma etapa plana até Sanguesa, a distância entre povoações era enorme e eu julgava ser esta a única dificuldade. Puro engano.
Consigo ver claro agora que subi um pouco mais e a neblina levantou. No horizonte, os pirenéus já não representam ameaça, mais abaixo, a barragem de yesa. Desço e continuo a descer até ler numa placa de sinalização que a estrada está cortada a 4 kms. Todas as localidades para onde queria ir apareciam noutra placa em direcção à via rápida.



Já aprendi que onde houver muita água, qualquer indicação que surja, não é bom sinal. Olhei para a cartografia do gps e avancei com fé. Uma derrocada tinha desfeito a estrada e esta estava em obras, olhei em redor e vi o denso bosque, o gps mostravava-me um caminho isolado e colado à encosta da montanha. Ali esta estava o local ideal para o Monastério de Leire. O caminho - afinal era o único acesso - para mim era a fuga para uma nova liberdade.
Tive um encontro improvável! com uma seta amarela. Segui na sua direção e fui sendo conduzido bosque adentro até conhecer a fuente de Las Virgens e o emblemático Monastério so Séc. IX. Estava longe de imaginar a via sacra que foi o dia de hoje. Carreguei, e bem, a minha cruz.
O Caminho Navarro desde Sanguesa estava a ser “duro de roer”, o azul do céu compunha metade da paisagem que me expunha ao vento que corria livremente por estes longos vales ondulantes.

24Set  Monreal-Puente La Reina-Torres del Rio-Viana

Prefiro a névoa ao frio da manhã. Sentia-me um cabide carregado de roupa pela estrada que hoje era plana e calma.


Finalmente livrei-me dos 4kg de tenda e acessórios e despachei tudo em Puente La Reina. O serviço dos correios é muito dispendioso, noto a diferença de peso, ainda assim questiono-me se não valia mais ter entregado tudo aos escuteiros. O conteúdo da caixa verde não vale com certeza o valor do envio.


Nesta terra, todos os Caminhos de Santiago se fazem num. Nota-se perfeitamente, mesmo 15 anos depois que este é o Caminho Francês. Muita gente, continua a surpreender as aldeias por onde passa num percurso muito bem arranjado para o caminhante.



 25Set  Viana-Logroño-Navarrete-Grañon

Confesso que imaginava o caminho tão descaracterizado como o estou a viver neste momento. Este é um caminho vivo porque é feito de pessoas, no entanto, quanto mais somos, menos unidos parecemos. Cria-se distâncias, frieza e muitas vezes as mesmas atitudes que se têm no dia-a-dia. Afinal, para quê fazer o Caminho de Santiago? Um encontro pessoal? Sim, mas essencialmente uma dádiva do que temos de melhor aos outros, uma palavra e um sorriso.
Foi com este espírito que voltei a entrar na Casa EL Chozo quando bem do alto se avista Logroño. É a cass da D.Felissa, há 11 anos estive aqui porque esta senhora nos dava “higos, Agua Amor”, não é preciso uma estampa na credencial para o confirmar. A dona da casa partiu, no seu lugar, a filha Maria de 81anos continua o seu legado.
Os tempos são outros, a mesa está cheia de alimentos e bebidas quentes para acalentar o peregrino, mas como dizia, os tempos são outros, as pessoas já não param e não sabem que estas pessoas são genuínas e são as originais. A D.Maria dizia “o Caminho já não é o mesmo, há muita gente mas vêm sem mochilas, em autocarros e correm à procura de cama.
Existe outra personagem mítica nos jardins de Logroño. Todo vestido à peregrino, de barbas longas e grisalhas, convida-nos a fazer uma pausa para nos oferecer algumas bolachas e mais um selo. Hoje já não está por cá. Quem sabe se também já partiu?
Estou para lá de Navarrete, sinto necessidade de escrever e comer e é numa grande área de descanso com mesas de madeira (em ventosa) que paro o tempo. Reencontro pela 3ª vez um ciclista que conheci há 5 dias atrás, é tempo de Ultreia. Hoje sou eu que ofereço bolachas enquanto ele partilha comigo que em Grañon temos um albergue paroquial de espirito comunitário. É uma verdadeira relíquia e um segredo que não vem nos manuais do Caminho.


26Set Grañon- Belorado-Alges- Atapuerca - Cardeñuela Rio Pico



O frio e as extensas paisagens castanhas dominam a província de La Rioja. Os caminhos são fáceis e muito rolantes se não estiverem encharcados de água, as povoações que cruzam, algumas têm 10 ou menos habitantes (sei que existia uma com apenas 3 e eram todos os que habitavam o albergue).
Amontoam-se carros nos troços mais isolados do caminho, montam-se bancadas com fruta e bebidas quentes. O peregrino já não vai ao supermercado, a comida vai ao peregrino. O comércio, a economia, os serviços, etc, tudo se desenvolve para fornecer todos as necessidades ao ser humano, inclusive empresas que transportam as mochilas entre albergues.




A concorrência é feroz, Agés há 11 anos nem se notava, hoje, o “chamamento visual” era tanto que me questionei porque não me lembrava desta povoação no passado?

Dormir em Burgos é uma utopia, antes de começar a seguir sul em direção a Salamanca, opto por outra revolução que a evolução do caminho trouxe a Cardeñuela. Gostava de conseguir desenhar o contraste das habitações existentes com os 3 albergues ornamentados de bandeiras, com pagamento visa, wi-fi, tv, piscina, etc.

27Set Cardeñuela Rio Pico-Tordesilhas-Salamanca_Ciudad Rodrigo-Sabugal-Castelo Branco

Em Burgos sempre senti frio. Os 4graus sentem-se essencialmente nos dedos das mãos, a bicicleta não rola mais rápido para não intensificar o desconforto.


Não tarda haverá sol, será um boa notícia e julgo que o melhor que vou ter nestes dias de grande monotonia na N620 até Salamanca. Este “corredor” com campos de cultivo de ambos os lados parece não ter fim, há 2 dias que aqui ando. O vento que sopra sempre mais forte ao final da tarde, reduz para 1/3 a minha velocidade, a chuva e o frio compõem o resto do retrato. Não quero continuar, despachei a minha autonomia, já não transporto a tenda nem o fogão e por isso estou mais vulnerável.

Valladolid é oásis, um bálsamo para atenuar esta tortura. Sem grande inspiração, já estou novamente a rolar. Passa do meio-dia quando o levante toma força e sopra forte contra todo o espaço que ocupo. É tarde, são 19h e sei que não vou chegar à mítica praça de Salamanca, avanço muito lentamente e ainda vejo o número 51 escarrapachado na tabuleta. Não há indicação de distância para  as próximas povoações, pergunto na bomba de gasolina onde posso encontrar sítio para dormir. Nesta estrada, a 10 km, dizem-me. Cheguei a Parada de Rubiales  e aqui dizem-me para procurar na povoação seguinte.
 “Grão a grão… Os habitantes percebem o meu dilema e é diretamente com o Alcaide que falo. Não está fácil a conversação, há um albergue (uma casa nova), mas falta um papel que autorize a sua utilização. Alego que como recurso vou para a paragem de autocarros e então consigo o que eles chamam de punto limpo.Não me orgulho e também não me envergonho do espaço que me facultaram para dormir. Por respeito a quem me está a ler, não o irei descrever



Do punto limpo de Parada de Rubiales até Ciudad Rodrigo apanho alguns aguaceiros pelo caminho. Aa estrada continua a não oferecer grandes diferenças e pelo caminho via muitas residenciais e estações de serviço. Era nelas que parava para abastecer de água e repousar um pouco. Perguntei o preço de alguns hostais e tomei uma decisão depois da conversa que tive no restaurante com a rapariga que me incentivou e disse, “Ciudad Rodrigo está SÓ a 10km, é logo ali” . Era escandaloso explicar-lhe que já trazia mais de 110km hoje, que somava 2500 km no total e o já ali podia fazer a diferença quando se vai de bicicleta contra o vento.


Domingo, o problema de sempre, até os Hostal estão fechados. Qualquer pessoa gosta de ajudar e por isso, com uma simples pergunta tenho várias opções onde me dirigir.Nesta cidade não falta alojamento, é imponente com a sua fortaleza e a torre de vigia usada no tempo das conquistas e que ainda hoje conserva as marcas nas pedras da artilharia inimiga.
Fiquei bem instalado, o preço também foi simpático





29Set Ciudad Rodrigo-Alfaiates-Nave-Sabugal-Meimão-Penamacor

Uma neblina forte e mais uma estrada sem nada nem ninguém, um deslocamento firme e isolado por terras espanholas sempre com olho na quilometragem que falta para entrar no meu país.



Uma pequena placa marca o território que delimita Portugal. Já não vejo os enormes obeliscos de Itália ou passo sob os gigantes arcos do triunfo da França, esta é, para mim, a mais forte das memórias. Uma estrada singela para um grandioso território carregado de história e tradição. Foi isso que num jantar com canadianos, polacos, espanhóis e franceses lhes mostrei: O homem do Quebec disse que defendia muito bem o meu país. Respondi que ninguém melhor que um soldado defende a sua Terra.



No Sabugal como o primeiro frango assado do mês, cheguei cedo e parece que o céu vai abrir para uma linda tarde de sol. Arranco, aproveito esta oportunidade e chego um pouco mais à frente. Sigo um bom atalho na N233 e entro na reserva da Serra da Malcata em direção a Meimão. Desço vertiginosamente para a povoação e tenho de compensar subindo até chegar à cota da barragem para aí seguir o mais plano possível por mais um desvio  que me permite poupar vários quilómetros.



 Olho em redor e parece não oferecer perigo a não ser quando chego a um pequeno ribeiro a transbordar de água (notava-se que tinha chovido muito em Portugal nos últimos dias). Filmo para logo ter de parar porque a bicicleta está a ser arrastada, preciso das 2 mãos e concentração para passar este obstáculo em segurança.







Penamacor está mesmo ali, para entrar na vila, seja qual for a opção vai ser preciso suar para chegar ao seu centro. Quem sabe os bombeiros me ajudam e deixam colocar o saco-cama num pequeno espaço, pensei. A 2 metros do quartel indago a um transeunte se ali seria o edifício da corporação. Recebi um sim pouco convincente mesmo antes de entrar no edifício. A minha intuição dizia-me que este não era o mais simpático dos habitantes da terra e por isso, dirigi-me à secretaria.
- Sou peregrino, venho de Roma e vou para Fátima, há espaço para colocar o saco-cama?
O presidente é precisamente o homem com quem me cruzei na rua. Pouca sorte, alguém antes de mim roubou um fato de bombeiro e condenou para sempre a possibilidade de alguém ali ficar a descansar.




Pouca sorte ou falta de vontade ditaram que fosse procurar alojamento local. Fiquei muito bem instalado numa casa de turismo rural, para lá da janela a serra não me impedia de continuar a ver todos os caminhos que tinha percorrido desde Roma.
As contrariedades não afetam o meu estado de espirito, deambulo pelas ruas ingremes desta cidade em busca da melhor ementa nos restaurantes locais. Tenho saudades de acompanhar uma refeição com  uma bela garrafa de vinho, neste caso, se o fizer longe do alojamento, sei que vou ter complicações. Opto pelo meu momento zen e mais uma vez escolho o menu no supermercado, levo a garrafa e deixo-me estar em paz. 

30Set Penamacor-Vila de Rei 



Hoje tinha uma surpresa, o Rui ia fazer-me companhia. Vinha de Lisboa no Intercidades com a sua bicicleta, juntos íamos fazer as últimas etapas. A sua rede de contatos bem como o conhecimento da zona substituíam bem o gps. Em Castelo Branco fomos acolhidos de braços abertos pelos primos do Rui e eu sou o novo elemento da família que se reune para jantar e conversar sobre as aventuras do dia. Eis que chega o momento de descansar, o jovem casal faz questão de me oferecer o seu quarto,transponho a porta e o meu primeiro pensamento foi: “que belos tapetes para colocar o saco-cama.”



01Out Vila de Rei-Castelo Branco


O meu novo companheiro de viagem receia atrasar-me e continua com dúvidas se irá ultrapassar esta odisseia pois não sabe se vai aguentar a quilometragem diária e ainda tem a somar a questão de ter os dias contados para esta mini-aventura.



A solução que apresento passa por manter a alvorada ao nascer do sol, sair cedo e escolher bem o itinerário. Vale de Ovelhas aparece numa placa, este era um desvio escolhido por ser a terra natal do Rui. Por caminhos de muita terra batida e pedra chegamos à casa rodeada de árvores de fruto que não negamos em provar. Não foi preciso muito para entrarmos num café próximo, é sempre bom saber as novidades da aldeia e debater o melhor caminho para a bicicleta com quem em tempos foi o taxista de serviço daquele lugar.


Vila de Rei está bem no centro de Portugal mas acreditem que o horizonte que nos é permtido avistar pouco tem de plano. É na verdade uma prova de superação para o Rui à medida que avança, lentamente, a subir e a torrar ao sol. As paragens são estratégicas e são elas que nos permitem novo fôlego, não vale contar as horas, não vale contar os quilómetros. Estamos com sentido de missão, Fátima não é assim tão longe.




02Out Vila Rei- Fátima


Estávamos numa região outrora fustigada pelos fogos florestais mas a sirene não tocou no quartel dos bombeiros onde passámos a noite.
O Rui não facilitou,consigo transportava tudo o que pensava vir a utlizar,mesmo sabendo que era por poucos dias. Obviamente que trazia excesso de bagagem e isso só lhe era favorável a descer onde passava por mim sempre sorridente. Por vezes ainda me questionava se faltava muito para a subida acabar, eu olhava o gps e como forma de motivação nunca me aproximava muito da verdade. É uma técnica que resulta, em esforço o sangue não parece oxigenar muito o cérebro e por isso saio sempre ileso nas palavras que pronuncio.
Parece que tudo vai a caminho de Fátima.São carros, camiões e tractores com atrelado, são vários os momentos em que na frente vai uma bicicleta a chefiar a coluna. Divirto-me a fotografar e a combinar pelo telemóvel uma hora provável de chegada ao Santuário. Espera-nos uma equipa de reportagem para que possamos enumerar o que nos move.
Indepentementeda estrada escolhida, a subida está lá. Qualquer casa, qualquer árvore ou objecto que projecte sombra é um bom sítio para descansar. Parados na soleira de uma porta somos abordados pela presença dos donos da casa que nos abonam com água bem fresca. Neste espaço tão perto do sagrado devem avistar muitos peregrinos, sabem que aquele momento não será esquecido, que com um gesto tão simples estão a ganhar um lugar no céu.



Os ponteiros do relógio mexem-se, o telemóvel toca, do outro lado a jornalista pergunta se ainda estamos longe e se chegamos à hora combinada. Depende das pernas – respondo eu.
Ela não sabia que nós já tínhamos feito um desvio de 10 km para a estacão de Caxarias (onde ficou toda a bagagem) e era para aqui que iríamos regressar depois da entrevista para apanharmos o comboio para Lisboa.
Não chegámos com a pontualidade britânica mas naquela praça tudo terminou em beleza e em paz. O nosso objectivo tinha terminado mas a totalidade do esforço não se tinha esgotado por ali, ainda era preciso regressar, a pedalar.
- Vamos à estação de camionagem, metemos as bikes no autocarro – diz o Rui.

 Na estação dos autocarros. - Vocês, ciclistas, são engraçados, pedalam centenas de quilómetros e depois querem regressar no autocarro por causa de uma distância pequena. A camioneta vai cheia, não vamos ter lugar.
Resignados, metemos umas moedas na máquina das bebidas e bebemos uma bebida energética.
Deixámos de ser peregrinos e tornámo-nos “sumólicos”. A estrada não terminou ali




Epílogo
Que interessa onde me levou esta viagem? A maioria das vezes nem me lembro dos nomes dos locais por onde passei e houve momentos em que perdi a noção do que estava a fazer. Tudo faz sentido quando é em mim que viajo,em redor do meu mundo.
Cada um deve procurar seguir a sua própria viagem com diz o Gonçalo Cadilhe. Ela surge naturalmente quando nos revisitamos em busca de novas respostas e nos conduz para dentro de um jogo de transformação facilitado pela estrada.





Estas são palavras escritas. Mais tarde podem ser contadas, no entanto, continuarão a ser palavras que passam, não se tornam parte da minha vida. Quando se sobrepõem às fotos e à experiência que passei, elas passam a habitar-me. A partir desse instante, eu mudei.
Todos somos peregrinos, pessoas num processo dinâmico. A cada um o seu Evereste, ao seu ritmo, a trilhar o destino que é só seu. Este sou eu a enfrentar as minhas montanhas e esta continua a ser parte da minha história. 

“Vene Vini Vinci” 
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