26 maio 2017

Caminho do Mar para visitar o Papa Francisco


 “O que é que pode voltar a dar entusiasmo e confiança, o que é que pode encorajar o ânimo humano a reencontrar o seu caminho, a erguer o olhar além do horizonte imediato, a sonhar uma vida digam da sua vocação, se não a Beleza?”
                                                                                             Papa Bento XVI

A caminho… Since 1999

Não é preciso fazer o Caminho com um terço na mão e duas rodas no chão.


Desde 1999 que percorro os Caminhos de Santiago. Exceptuando o que me levou de Roma a Fátima, todos os outros têm tido como destino Santiago de Compostela.
São muitos anos a sair de casa, o Caminho continua, é, no entanto, altura de fazer o regresso.  
O Caminho é o que nos leva à família. Gosto de voltar à casa onde está quem me acolhe, que aceita a minha condição de peregrino e esta necessidade de conhecer todas as coisas que despertam em mim o mesmo sentimento que uma criança sente quando vê algo pela primeira vez.
Neste périplo o meu quilómetro zero será no Convento de Cristo em Tomar. Seguirei de Nascente a Poente, passarei pelo Santuário de Fátima, desvio ao Convento de Alcobaça para depois continuar até à Nazaré.

Não é o mais perto da costa que posso ir, mas é, o trajecto que mais monumentos, igrejas e conventos poderei visitar. O Centro Nacional de Cultura chamou-lhe o Caminho do Mar e liga a cidade do Estoril a Fátima.
Vou segui-lo até à igreja matriz de Oeiras. Não é possível o engano, são muitos os sinais que me guiam.

Que sinais é que eu sigo?


Para a Patagónia, fui para Sul. Já segui para o Norte com a Islândia em vista. Lembro-me de ter ido para os lados do Oriente quando estive em Petra.
Neste meu destino para Oeste, como o peregrino que sabe donde parte, onde quer chegar, mas não sabe o que vai encontrar pelo caminho, confio nos trilhos que me conduzem ao Papa e terminam junto de ondas gigantes.

Aproveito assim para comemorar o Centenário das Aparições de Fátima

Estava escrito algures que “Os que trilham os caminhos do Santuário sabem que naquela geografia experimentam o Deus que extravasa todas as fronteiras.”

Oeiras-Santa Apolónia-Tomar-Alfeizerão


Vivemos num tempo seta. Com esta expressão não me refiro no sentido do tempo que voa e não volta para trás mas nas afirmações constantes que fazemos ao dizermos que não temos tempo. Não é o tempo relativo?
Vivemos num mundo tecnológico que corre velozmente e contagia as pessoas.
Uma coisa sei, não se pode poupar o tempo. É cedo, muito cedo. O cérebro não ajuda a processar a informação sobre se devo ou não escrever que o que inicio hoje é uma viagem?
Se começo o dia bem cedo é sinal me preparo para mais uma aventura. São apenas 2 dias. É este o tempo que falta para o 13maio.
Comemora-se o Centenário das Aparições de Fátima, justifica-se plenamente uma viagem. Sim, respondo agora com a caneta. É uma viagem, vou de a para b sabendo que é tudo aquilo que encontro neste intervalo a razão pela qual começo dia antes do sol nascer.
As previsões meteorológicas não são favoráveis para os próximos dias, aliás, há mais de uma semana que olho o céu enquanto espero uma aberta entre as nuvens que teimam em não se mexer.
Não adianta esperar, se olharmos o cenário da janela, ligarmos ao alerta amarelo, começamos a pensar demais. A mente pode acabar por dominar o corpo, o conforto não quer sair e podemos ficar arrependidos por adiarmos mais um projecto.
Se quisesse podia arranjar desculpas que seriam capazes de encher um camião TIR, no entanto, basta-me uma razão para colocar os pés nos pedais.
Falta pouco para chegar a Tomar, estação terminal. Começo a pedalada em direcção ao Convento de Cristo, ao mesmo tempo, olho o cinzento do céu e penso se terá sido uma boa opção fazer-me ao caminho nestas circunstâncias.

Abrigo-me numa das inúmeras concavidades que este monumento oferece. A previsão falava em trovoada e aguaceiros. Há muito tempo que não ficava assim, parado, a ver chover.
Saio numa aberta que nada durou. A copa da árvore serve-me de toldo, parece que alguém verteu um cântaro lá do alto. Quando entro no trilho, só lama, pedra e água que corria por todos os lados. Agachado no arco do aqueduto e foi aí que ponderei voltar à estação de comboios e retornar a casa. Ora chove, ora não chove. Passam-se minuto neste compasso. Avanço timidamente olhando o gps, a chuva continua a cair mas desligo a mente. Aliás, a bátega é tanta que faz doer os olhos.


Até Fátima a roupa passa por várias fases de lavagem e secagem. Dificilmente se vê um peregrino com um pé sobre o caminho de terra (ou será água?!), no entanto, ao chegar à estrada parecem pirilampos mágicos.
Alguém um dia tem de explicar-me a atracção pelo alcatrão…

Fátima “parece” um quartel-general. A um dia de chegada do Papa e contava ver o Santuário muito mais recheado de massa humana. As tendas e as lonas esticadas como avançados do carro que se encontram no parque de campismo improvisado ao lado dos parques de estacionamento não têm ocupação suficiente de pessoas que resulte numa enchente.
Amanhã será o grande dia de viagem para milhares de peregrinos e será também um excelente dia para cultivar a paciência.
Adorei os trilhos daqui para a frente. Os caminhos, assentes sobre pedra calcária e cascalho são perfeitas para uma bicicleta todo o terreno. Há que evitar a subida à Serra Aire antes de Pedreiras. Não é ciclável.

Até Coz nem o caminho nascente nem o poente desiludem. Vale a pena a visita ao Mosteiro Cisterciense. Quem olhar de fora deve meditar nas seguintes palavras. “Quem vê caras não vê corações”.

Alguns metros adiante, de visita à adega conheço um homem do Quénia. Funciona neste espaço um pequeno atelier que produz alguns objectos utilizando como matéria prima o junco.
O “Tito do Quénia” apaixonou-se pela arte e pelo local e aqui ficou para aprender, e quem sabe viver.

Já não estou longe da Nazaré. O vento sopra de sudoeste e não dá tréguas. É no Sítio que o  vejo fluir livremente enquanto corre veloz.

Ligo-me ao Caminho do Mar enquanto o observo da Serra das Pescarias. A construção imobiliária na encosta parece exagerada. Parece que alguns (muitos) querem olhar o mar através da janela ada sala ou do quarto. Continuo a preferir faze-lo no meu veículo a pedais sem portas nem janelas.

Vou dormir em Alfeizerão, já mereço descansar depois de tantas horas sentado num selim. Confesso que gostaria de ter esta capacidade de aguentar o mesmo número de horas na mesma posição sobre uma cadeira no local de trabalho.

Alfeizerão-Obidos-Torres Vedras

A pousada da juventude de Alfeizerão está bem situada e permite ter uma vista desafogada sobre o areal e o mar.
É bom começar o dia a descer e retornar ao track alguns quilómetros adiante. Entrei na zona Oeste e todo o caminho é muito rápido até às Caldas da Rainha onde se rola por vezes sobre a Nacional 8. Dentro desta cidade acontece o mesmo quando se cruza qualquer cidade em qualquer país do mundo. O betão,o aglomerado populacional, as lojas, o tráfego, tudo faz parte de um todo que é fazer uma travessia ou viagem sobre 2 rodas.


Quantas vezes já entrei em Óbidos? De bicicleta é a primeira vez. Sigo intramuros e saio, numa outra porta para voltar a fazer companhia aos pomares de pêra rocha.
Não posso afirmar que seja um percurso maravilhoso enquanto rolo paralelo à linha de caminho-de-ferro e algumas vezes sobre a Nacional. Encanto-me com alguns troços para Torres Vedras mas a distância ainda é longa e os eucaliptos invadem o cenário e minam a minha vontade de pedalar.


Consigo alcançar a cidade e ainda ter tempo para apanhar o comboio em direcção a casa. Prometi dormir longe só um anoite. Terei certamente oportunidade para retornar a este local uma vez mais e terminar esta rota até à Igreja Matriz de Oeiras.


A Grande Rota do Vale do Côa

“Os homens que vão à procura da nascente de um rio estão simplesmente à procura de algo que falta dentro deles e nunca encontraram."


Dia 27abr2017 Soito-nascente-Vilar Maior

A aventura começa com a tentativa de colocar 4 bicicletas num minibus que inevitavelmente esgotou a lotação juntamente com a bagagem dos passageiros. Há primeira tentativa ficava metade das bicicletas em terra, havia a necessidade de reorganizar e criar alguma metodologia que permitisse o aproveitamento do limitado espaço disponível.


Sacos empilhados, os que saem com os donos primeiro ficam o mais perto da porta. Soa no ar que há ovos, repolhos e sem lá mais o quê no seu interior. A tática de sobrepor e ganhar espaço em altura continua com a anuência e muita paciência dos passageiros que vão permitindo que haja um convívio tão perto com as bicicletas mal protegidas. Já não têm as rodas nem os selins, não sabemos nem podemos tirar nada mais.
Já em viagem, percebemos que a maioria são emigrantes reformados e idosos que vieram visitar os filhos no fim de semana prolongado. Regressavam agora e tinham a nossa companhia. A algazarra era total, o Bolacha, o homem da lycra, simulava vozes como se de um guia se tratasse. Durante as nossas conversas, recebíamos inputs sobre toda a região que íamos atravessar. Era como se o minibus fosse um posto de turismo ambulante. Estes bons momentos acabaram por encurtar o longo percurso até ao Soito.
A temperatura arrefeceu imenso. O vento gelado sentia-se nas mãos e faces e mesmo sem termos saído bem cedo da residencial foi necessário recorrer ao casaco impermeável para proteger o tronco. O dia a pedalar prolongou-se até às 21h. Foram muitas as situações que propiciaram mais de 7h a dar aos pedais. Para chegar à nascente do Côa necessitámos de 25 km, quase metade foram com a bicicleta pela mão.


Já passava das 11h da manhã quando iniciámos o trajeto oficial. Não se pode dizer que os caminhos estejam limpos de vegetação, na maioria das vezes há muitas raízes, silvas e erva-rasteira que aumentam as probabilidades de furar. Fui eu o contemplado com 2 furos. Se o tempo começava a escassear, ter que parar para substituir 2 câmaras de ar ainda contribuía para arrastar o dia para lá da hora de jantar.
O percurso está bem marcado, são também percetíveis os desvios para a opção btt/equestre. Continua a ser recomendado o uso do gps porque por vezes não se identifica as marcas da Grande Rota.
A casa de Turismo Rural em Vilar Maior fica bem distante da linha de água. Nesta aldeia não existe qualquer estabelecimento onde seja possível tomar uma refeição. A solução passa por pararmos cerca de 5 km antes em Badamalos. Já dentro do emaranhado de ruas empedradas e casas onde predomina a pedra e o granito, torna-se difícil encontrar o restaurante mesmo com as indicações de 2 habitantes locais. Durante alguns minutos cirandamos por ali na esperança de avistarmos algo que se destacasse daquela cor predominante que era o cinzento.


A ementa não permitia divagações gourmet. Só havia uma escolha possível, mesmo assim pedimos várias travessas. Hoje, no dia em que escrevo estas linhas, e também naquela noite de abril, fico contente que ninguém quisesse partilhar um jarro de vinho. Não sei o que aconteceria depois… Pedalar de barriga cheia não é das melhores sensações, em contrapartida, sabe muito bem pedalar ao lusco-fusco num ambiente de pura liberdade, sentado no selim a observar um castelo bem iluminado que está cada vez mais perto.

Dia 28abr2017 Vilar Maior-Almeida- Pinhel

Os alojamentos em Turismo Rural pautam sempre pela simpatia e pela riqueza dos seus pequenos-almoços. Obviamente que queijo de ovelha e chouriços misturados com leite e café chocalham no estômago enquanto se pedala. Sossega-se a mente sacrificando o corpo, penso.
Continua a surpreender o vale que nos envolve, em Jardo a GR começa a desviar-se do Côa. Seguimos entre muros com um lindo tapete verde pelo meio. Andamos nos topos das montanhas e esta é a melhor maneira de absorver todo o vale inóspito que nos envolve. As pedras são a base do caminho, não oferecem dificuldades quando descemos para o rio, mas em sentido inverso torna-se demasiado exigente para nos conseguirmos manter sentados no selim.


Pedalamos por estas terras xistosas enquanto tal nos for possível sobre as margens do Rio Côa. O rio que corre para o Douro sobre as montanhas do nordeste de Portugal. É mais um dia que surpreende pela beleza da paisagem e diversidade de cenários que oferece
Fomos abençoados com a limpeza e compactação do caminho sem imaginarmos que terminaria junto à água e estaria bloqueado por pedras gigantes. Só aqui a descrição aterradora que fazem desta rota fez algum sentido. O gps aponta e dá-nos uma direção, no entanto, sem a ajuda das marcas vermelha e branca algures na rocha, e acho que íamos molhar bem mais que os pés. Foram alguns metros com a bicicleta pelo ombro e com sorte ao nosso lado pela mão.



Chegou a hora de escolhermos, seguir para oeste e mantermo-nos na margem esquerda do Côa ou optar por atravessarmos uma singular ponte que nos coloca cada vez mais perto de Almeida. Paramos pouco tempo depois, o Bolacha está atrasado, queixa-se da dificuldade em colocar mudanças. Chega, entretanto, a pé. Confirmo que tem a calha do desviador partida e que a corrente por essa razão prende. Encontra-se a relação perfeita onde a corrente pode correr livremente e assim o Bolacha já pode seguir um pouco mais rápido evitando os trilhos.


A fortaleza de Almeida é a razão que nos leva para este. Nesta vila fortificada preparamo-nos para a segunda parte da nossa odisseia. O caminho é fluído, grandes descidas permitem-nos atingir velocidades de 60 km/h ajudando-nos a cobrir grande parte do trajeto até desembocarmos na margem do rio. Tirando a vegetação que cobre os pratos pedaleiros eu diria que estava numa bonita ciclovia.

Muito antes do extenuante empedrado que nos transporta para Pinhel, foi preciso tirar os sapatos para transpor o açude que nos surgiu pela frente. A velocidade da corrente e o piso irregular manchado de plantas verdes são condições que não oferecem segurança para uma condução segura em 2 rodas. O risco não cobria a adrenalina nem tampouco havia necessidade de nos expormos assim ao perigo.

                                                                                                      
                          
Dia 29abr2017 Pinhel-Cidadelhe-Vila Nova de Foz Côa


A paisagem começa a mudar, a nossa visão abarca grandes horizontes com desníveis mais abruptos e terras agrestes.


Entrar no castro de Cidadelhe é voltar à Idade Média. No miradouro, as bicicletas, de cima, entre o Côa e as rochas que o limitam e obrigam a fluir em desfiladeiro, apercebem-se da importância do lugar apelidado de calcanhar do mundo. É Património Mundial da Humanidade, aqui iniciou-se a descoberta do vale sagrado. O tempo congelou nestas paragens, nós meditamos enquanto descemos vertiginosamente para uma ponte que cruza o rio. Não há outra forma de passar. Por entre pedras, cavalos garranos, sobreiros centenários e casas abandonadas progredimos num percurso rápido e deveras agradável que a reserva da Faia Brava nos oferece.


            A mão humana faz-se sentir nestes cumes trabalhados, obtendo com suor, labor e engenho o sustento de muitas gerações. As rochas de xisto não cobrem apenas os caminhos, as encostas deste vale inabitável e esmagador ou o leito do seu rio. Algures, são muitas as que têm gravuras rupestres, dizem mesmo os especialistas que ali se encontra o maior museu ao ar livre do Paleolítico de todo o mundo.
Relembro  agora a notícia que abre os telejornais no preciso dia que chegamos a VNFC.
As gravuras foram vandalizadas, alguém se atreveu a desenhar uma bicicleta junto das gravuras com 10 mil anos.
Quem consegue encontrar palavras para ato tão hediondo?
A borracha dos pneus não deixa marcas, o suor não corrói, os nossos antepassados talvez tenham ficado por aqui porque não tinham bicicletas. Ainda bem que ficaram para nos deixar tão belos painéis de arte. Nós continuamos…



A ousadia não é suficiente para nos acercarmos das muralhas de Castelo Melhor, olhar para cima é o melhor que conseguimos. A cada quilómetro, há medida que nos aproximamos da sua foz, faz tempo que o rio vem alargando fronteiras.
O autocarro parte para Lisboa a meio da tarde. Conforme o terreno permite e os nossos andamentos assemelham-se a ritmos de uma prova do género maratona.

Com o Douro aos pés, conquistamos V.N.Foz Côa sem sofrermos nos ossos as trovoadas e aguaceiros previstos para o dia de hoje. Claro que não se pode dizer o mesmo da arrojada subida que nos leva ao centro da cidade.


16 novembro 2016

Do mar Mediterrâneo ao mar Cantábrico pelos Pirenéus Franceses


Seis anos passaram desde a Transpirenaica e a nostalgia de sentir o apelo da montanha vinha corroendo o meu cérebro. Além disso, sempre quis saber como era o cenário do outro lado. Nasce assim a ideia de cruzar a cordilheira dos Pirenéus pela vertente francesa, pelo lado oriental.

Aeroporto 24Jun16 – Estou com o Pedro Capelinha no aeroporto de Lisboa. É mais uma viagem com bicicletas mas desta vez o problema não estava no excesso de peso da bagagem. A minha caixa de cartão tinha uma dimensão gigantesca. Lá dentro cabia uma bicicleta completamente montada e quase tudo o que mais necessitava.
A fita adesiva estava colada em todas as direções e em quase todos os espaços da caixa, era uma forma de reforçar e impedir que o cartão se rasgasse pois bem sei a forma como o pessoal do ground-force despacha a bicicleta.
- STOPPP!!! Essa caixa tem de passar na máquina do RX do guichet de bagagem especial e nem é preciso ter olho de engenheiro para perceber que não irá entrar. Num ápice, inverti todo o processo para retirar toda a fita adesiva e adelgaçar a caixa até à medida aprovada.
O Baleia e o Nunes vão fazer esta aventura connosco mais saíram mais cedo do aeroporto porque enviaram as bicicletas por uma transportadora e precisavam de chegar dentro do horário de expediente para levantar a mercadoria.
O ponto de encontro marcado para as 01h00 na estação de Barcelona-Saints foi anulado. Esta parelha não foi bafejada com a estrela da boa sorte. A corrida de táxi compensou o atraso do avião aquando da chegada a Barcelona mas como era dia de “fiesta” em Espanha, tudo estava encerrado.

Não há conforto para dormir num terminal de aeroporto mas com esteira, saco-cama e um local pouco iluminado pode-se conseguir umas horas sossegadas.
É bem cedo, nas primeiras ligações da manhã, entre transferes de terminais e ligações de comboio que viajo com o Pedro até ao outro lado da fronteira em Cérbere, França. À memória chega-me um parágrafo do Gonçalo Cadilhe que justifica na perfeição esta minha opção de não dormirmos em Barcelona como turistas.




Arranquei de madrugada, porquê de madrugada? Tinha logo se ser cedo? Parece que as grandes partidas, as viagens épicas, as epopeias precisam de começar com o nascer do sol, talvez para lembrar os mais dorminhocos que uma viagem é uma coisa muito séria


A mole imponente dos Pirenéus está a minha frente. Este bastião, esta fronteira natural que se ergue de este a oeste ainda não sabe que, quem a cruza encontra uma forma de descobrir as dimensões humanas.


E1 – Cerbere - Argeles sur Mer - Ceret 25Jun16

Não há neste troço muita história para contar. O mar está sempre ao nosso lado, o vento não ajuda e a noite sem dormir também não. Esta deve ser, provavelmente, a razão da ausência de elementos que coloquem no papel esta distância que parece infinita.
Dificilmente uma travessia começa logo a surpreender. Esta ligação seria a que nos levaria bem para a base dos Pirenéus enquanto mantínhamos o contacto telefónico com os nossos amigos que vinham a toda a velocidade ao nosso encontro.

E2 – Ceret-Sournia

Já estamos os 4 juntos. Sair cedo, ao nascer do sol, é uma condição que se exige a quem deseja executar mais que uma mão cheia de quilómetros. Não temos nenhuma poção mágica para além da muita massa que cada um carrega (mais tarde vim a descobrir que a outra parelha traz 2 embalagens de massa instantânea para todos os dias).
Vinça era o nosso destino. De antemão sabia que existiam troços obrigatórios para serem feitos a pé (podiam chegar às 3h de duração). O trabalho de casa feito no Google Earth ajudaria, quando possível e sem perder pontos de interesse, que pedalássemos o tempo quase todo. Para mim, pedalar é andar de uma forma diferente. Não existe alternativa capaz de igualar a beleza deste movimento.
É domingo, sabemos que tudo vai estar fechado. Sabemos também que os primeiros 4 ciclistas a chegar ao camping, não pagam. Horas mais tarde, já no parque, constatámos que era publicidade enganosa. À sombra de inúmeras árvores, começámos a tirar o material dos alforges, tínhamos conhecido um ciclista espanhol que tinha uma característica muito particular, não parava de falar. Estivesse a pedalar, ou não.


Passam poucos minutos do meio-dia, é cedo, ao nosso lado temos um bonito lago para apreciar o resto da tarde. O único problema era que o faríamos de barriga vazia. Até ali não tinha havido pontos de abastecimento e também não haveria nas próximas dezenas de quilómetros, no entanto, estarmos parados não é bem o nosso forte.

Quantas vezes não se encontra o que se procura e se encontra o que não estamos à espera?!!!
Há flores por todo o lado, há vasos e estátuas espalhadas pelo terreno. Lê-se num portão a palavra Non-Stop e, elevado um metro acima da porta, a palavra frutaria. Espreitamos, está no nosso caminho. Lá dentro há quanto baste de alimentos para nos fornecer uma bela refeição sem ser frugal ou vegetariana.

Durante a digestão do belo frango assado comuniquei que iríamos optar pela alternativa por Marcevol mas que esta ia diretamente para cima durante muito tempo. A subida era forte o suficiente para nos separar aos 4. O som de tempestade, típica nos Pirenéus ao final da tarde, começa a dar sinal. Chove, chove mais ainda. O ranger da minha roda traseira já me acompanha há várias horas. Cada vez que paro esqueço-me de a verificar. Este som não augura nada de bom, quase nunca o ouvi mas as minhas suspeitas revelam-se. É um raio partido.
Já disse que continuava a chover? Vou devagar para não provocar mais danos até que encontro os meus companheiros abrigados dentro de um pequeno refúgio construído em pedra.

As birras geológicas dos Pirenéus abrigam um clima instável. Tão depressa podemos estar a ser acariciados ou sepultados sob um sol inclemente, como no minuto seguinte, a tempestade transformar aquele ambiente num local duro e inóspito.
Percebo que afinal são 2 raios partidos e que consertar a roda era a minha prioridade máxima. Bebemos café enquanto esperamos uma aberta no tempo que nos permita sair em segurança montanha abaixo. Após a peculiar vila de Campoussy sucede Sornia, o nosso ponto de paragem.



E3 – Sournia-Axat- Quirbajou

Era bom que o vendaval que sentimos na noite anterior tivesse acontecido só enquanto estávamos nas tendas pois hoje tínhamos pela frente uma verdadeira etapa de montanha. Sempre a baixa velocidade mas em alta rotação, por muito que escreva, as palavras são impotentes e nós ciclistas somos minúsculos quando nos deparamos com muros de pedra desta envergadura.


Gosto de observar a disparidade de tamanhos enquanto estou sentado no selim da minha bicicleta.
Longas extensões de bosques cerrados e verdejantes sucediam-se desde a meia encosta até aos topos da montanha. Os single-tracks deliciavam-nos e as paragens só aconteciam para filmar ou tirar fotografias.
O vento forte manteve-se toda a manhã. Cerca das 15h, já em Vinça e com as lojas abertas, tivemos o nosso brunch. Até então, a parelha constituída pelo Nunes e Baleia só tinha comido géis e barras.


Nesta localidade estávamos dentro do planeado para o 3º dia, ainda assim, por decisão unânime e com os alforges a transbordar, fomos um pouco mais além. Da cota do rio fomos à cota de mais um cume para ter o privilégio de pedalar num plateau cujo cenário se assemelha aos dentes de um serrote.
A nossa preocupação por agora passa por encontrar um espaço onde pregar estacas. Vários rolos de feno são a parede que oculta a nossa paragem em um lugar dos Pirenéus.

 E4 Quirbajou - Monteferrier

Alguns minutos após o nascer do sol ainda a neblina não tinha assentado. O orvalho cobria tudo como uma manta. Sem água para o café, foi um acordar lento. Espalhado sobre a erva seca e rasteira, havia tachos, copos e lixo para carregar.
As duas ou três casas que formavam a povoação estavam em linha de vista. Sabíamos onde estava a torneira da fonte e foi lá que, já com água, fizemos o nosso café, lavámos a loiça e os dentes.



Grande parte do nosso périplo de hoje assentava sobre a GR-107 no sentido do caminho cátaro até Montségur. O highlight foi inevitavelmente o desfiladeiro de Gorges de la Frau com os seus abruptos desfiladeiros a erguerem-se bem para lá das nossas cabeças. Predomina o verde, os sons da água a correr e o chilrear dos pássaros completam o cenário que ainda dura longos minutos pelos túneis luxuriantes de vegetação.




Estes pináculos em nosso redor só podiam ser escalados ou então contornados, as curvas de nível do mapa topográfico do GPS anunciavam um verdadeiro calvário para os próximos quilómetros. Foi, sem exagero, uma via-sacra para todos nós. A inclinação e a lama eram bíblicas, a bicicleta não era empurrada mas sim puxada e arrastada, avançando metro a metro acompanhada de fortes momentos de arritmia. Ofegante, parava para controlar o ar que saía forte entre a diástole e a sístole enquanto revezava o braço que movia a bicicleta. O meu coração parecia bailar como canas ao vento.


Várias horas passaram até avistarmos o bonito e altaneiro castelo de Montségur. Pelo interior de túneis de vegetação avançamos um pouco mais até ao camping em Monteferrier. Foi aqui que com o poder da negociação em várias línguas – as palavras em francês são parcas - para conseguir convencer o gentleman James a cozinhar um menu 50% abaixo do valor de ementa.

E5 Monteferrier – Foix

A lama colava-nos as rodas ao chão durante os primeiros quilómetros e quase nos fez inverter o sentido da marcha para descermos até uma estrada de alcatrão e seguir uma alternativa mais cómoda e limpa. Aproximamo-nos para tomarmos uma decisão em conjunto. Foi uma boa opção persistir em subir. Nestas montanhas não existe saturação de cores, o verde é a cor dominante e pouco mais é preciso acrescentar à beleza que nos envolve.


Quando finalmente chegamos ao topo, podemos, de cima, olhar para todo o horizonte das terras Cátaras onde em tempos viveram os Bons Hommes em busca da perfeição espiritual.

A vila medieval de Foix, seteada junto ao rio, foi um bom ponto de paragem para uma etapa curta (30kms) mas que consumiu 6h do nosso dia. Pernoitamos no albergue Leo, o preço era justo para obtermos mais tempo livre e o conforto de uma cama. O saguão do edifício serviu de lugar para as bicicletas, cozinhar e estendal.





E6 Foix-Massat

Tanta terra selvagem sedenta de ser percorrida bem à minha frente. Não consigo viver sem efeito enquanto a minha alma grita pela montanha. O que são, ou fazem, de diferente, as minhas pedaladas para o mundo? Ele continua a girar - penso. Pois, eu também, e é aqui que reside a minha liberdade e felicidade.

A inclinação aceitável dos caminhos de hoje ajudou-nos a vencer mais de 20 quilómetros até ao topo em Roc Blanc (21542 m) onde nos sentámos para o nosso momento habitual de café e bolachas. A intenção era que a cortina de neblina abrisse e mostrasse todos os cumes que nos cercavam. Queríamos conquistar aquele spot! Ali não colocaríamos a bandeira portuguesa mas com certeza que as fotografias espelhariam a audácia de logo a seguir palmilharmos um trilho a descer com quase 30% de inclinação.
A cor verde não se esgota por estes lados. As nuvens estão carregadas, pinga repetidamente, as terras estão pesadas, no entanto, dá gosto rolar a alta velocidade neste ambiente que parece o parque jurássico


É no camping municipal Le Pouech da bela vila medieval de Massat que montamos tenda e fazemos o inseparável churrasco acompanhado das inerentes garrafas de vinho. O nosso dia-a-dia podia ser isto. Voltar a sentir o lado simples da vida.

E7 Massat-Castillon en Couserans

Há locais envoltos em mistério e que nos deixam a pensar qual será a razão para encontrar 2 casas comunitárias a abarrotar de seres humanos alternativos a fumar ganzas e todos com um cheiro a besta que se sente à distância. Em Massat ficou o enigma.

Os caminhos florestais continuam a dominar e é com uma vertiginosa descida que nos sentimos num outro espaço devido à diferença que observamos em nosso redor. Cruzamos Oust e Seix (já sinto saudades do que vi), pela frente, a GR-10 leva-nos por um colossal desfiladeiro que vai penetrando no coração dos gigantes de pedra. A pé, sobre pastos verdes, tivemos que recrutar todos os nossos músculos para não sentir as forças a faltarem em determinados momentos. “Step by step” galgámos o dorso à montanha pois jamais perdemos esta eterna energia que nos impulsiona, que nos queima os músculos e que nos impede de estarmos parados. Com as rodas bem firmes no chão avançamos como se já nada pudesse parar este movimento.

Num abrigo de madeira, repousamos enquanto esperamos pelo Capelinha. Lá fora, improviso um estendal para colocar a camisola encharcada que pingava suor. Foi uma luta de titãs, numa palavra, foi dantesco. Felizmente a estrada de alcatrão estava a escassos metros de nós. Aqui, as bicicletas carregadas embalam para lá dos limites decentes de velocidade a que devíamos descer. A adrenalina corre-nos nas veias, cada vez que abrando penso o que acabará primeiro, os discos ou as pastilhas de travão?

Na minha cabeça ecoa: solta o travão. Solta, solta… Deixa ir. Aprecia o que está para vir…
De cima só vemos o negro dos telhados, aproxima-se mais uma povoação Pirenaica misteriosa, Castillon em Couserans.

E8 Castillon en Couserans-St Bertrand de Comminges.

Quem pode recusar um café bem quentinho logo ao acordar? Ainda nem a cara tinha lavado e já o responsável do camping me estava a perguntar se queria café. Também queria saber se pretendíamos secar a roupa, tinha visto o estendal cheio de lycras e sabia pela noite chuvosa que as peças estavam mais molhadas que aquando da sua lavagem. Há pessoas que entendem bem o que é isto de viajar com bicicleta e alforges.
Saímos tarde para uma etapa que se antevia dura. Choveu todo o dia, o slalom era constante pelos single-tracks cobertos de lama. A bicicleta ganhava vida própria, só era necessário manter o equilíbrio.

Trilhamos parte da Route de Cols, para trás fica o conhecido Portet D´Aspet que é transposto por inúmeros ciclistas e motociclistas. Continuadamente surgem um conjunto de 2 ou 3 casas, seja qual for a dimensão do lugar, não se vê vivalma.
Nós insistimos para a frente, imundos, o óleo não fica na corrente mas as nossas rodas continuam a girar numa sucessão de belas paisagens que parecem nunca esgotar de nos espantar.


E9 St Bertrand de Comminges-Bagnères de Bigorre

Nem sempre os trilhos que nos levam ao topo são os mais adequados para uma bicicleta carregada. Onde não existem opções para transpor algumas linhas de altura, torna-se necessário empurrar. Mesmo suados, temos apreciado bem as enormes descidas que serpenteiam as encostas destas montanhas.


A profundidade do vale estende-se bem longe à nossa frente. Um parafuso partido num suporte de alforges ditou uma paragem forçada. O arame farpado da vedação foi uma das soluções para manter o suporte preso ao espigão de selim.



Parados, a distância não muda. A “avozinha” era a pedaleira favorita que lentamente nos fazia avançar. Tão tarde chegámos que nem a recepção do camping estava aberta. Faltava pouco para o pôr-do-sol e nós com uma enxurrada de tarefas para executar.
Depois desta etapa merecíamos um mimo, quem sabe uma refeição bem guarnecida já que não o fazemos há vários dias. Acompanhámos a massa com água. O bom destas lições de sentirmos a falta de tanto conforto é que, quando voltarmos, seremos com certeza mais felizes pois a abundância é algo que reina no local onde habitamos.

E10 Bagnères de Bigorre-Argelès Gazost

Bagnères-de-Bigorre é ponto de passagem do Tour de France. Assim que saímos do camping, são muitos os ciclistas que connosco partilham a estrada. A nossa ideia era seguir para o Col do Tourmalet, havia como alternativa seguir por Lourdes, mas é no topo da montanha, bem perto do céu, que está a nossa fé.


É frustrante olharmos para uma placa que indica apenas 10kms e pensarmos, falta 2h. Para trás ficam os outros quilómetros, muitas horas e uma camisola de lycra que já ensopou e secou várias vezes.
Acima dos 2000 mts, ainda sem folego, no col do Tourmalet sucedem-se um corrupio de carros, pessoas e bicicletas que entopem a única estrada que cruza a montanha. Sei para onde vamos, sei também que iremos descer imenso e que o disco da frente está muito fino e as pastilhas de travão gastas. Com esta preocupação não consigo falar dos 50 tons de cinzento do céu nesta tarde nem da velocidade que atingimos ao rolar em fila indiana para chegarmos a Argelès Gazost. Este punhado de quilómetros rendeu cada gota de suor e um novo conjunto de travagem adquirido numa loja de bicicletas.



Chove copiosamente, permanecemos imóveis sob a copa de uma árvore no parque de campismo de 5*.Não queremos pagar o valor exorbitante que nos pedem, à nossa volta, as pessoas em biquíni e com boias fogem da água que cai lá de cima. Sinto uma depressão domingueira em que me apetece ir para a cozinha, ligar o forno e fazer um bolo.
Julgo que todos estamos a sentir que o ímpeto não é o mais elevado e por isso partimos para procurar novo refúgio. O camping seguinte tem o telheiro do palheiro e um escritório onde só é preciso abrir os saco-cama.


E11 Argeles Gazost-Laruns-Bedous  (Route des Cols)

Hoje temos dose tripla de Cols. Aquecemos pelo Col do Soul, exasperamos pelo Col D´Aubisque (cujo caminho foi recortado pela montanha) e continuando devagar, chegamos ao Col Marie Blanque. Um manto de neblina impossibilita-nos de desfrutar os gigantes de pedra que constituem este maciço do Pirenéus Atlânticos.


Atingimos velocidades verdadeiramente perigosas na estrada que nos leva para terrenos mais baixos. São os telhados negros de Laruns a anunciar que a partir deste ponto um novo prémio de montanha começará.
Tudo fechado. “Rien de rien” é a palavra certa para o que não existe nas povoações que cruzamos. A fraqueza instala-se, torna-se vital localizar um ponto de água para que façamos uma paragem estratégica, montemos o camping gaz e cozinhemos aquilo que cada parelha traz consigo.
O meu companheiro tem sopa, apple strudel e café, a outra equipa carrega desde o primeiro dia vários pacotes de massa instantânea. Vamos no 11º dia e ainda conseguem cozer al dente, esparguete e tagliatelli carbonara. Tudo feito em mais um banco do jardim num qualquer lugar perdido nos Pirenéus.

A cartografia do GPS não engana, vamos para mais uma forte subida, mas desta vez levamos os depósitos de glicogénio atestados. Que vale magnífico antecede o Col Marie Blanque. Uso exactamente o mesmo adjectivo para ilustrar o vale D´Aspe pois se tivesse de acrescentar outra palavra não saberia escolher. Optem por gigantesco, soberbo, magnificiente…



E12 Bedous-Licq Atherey

Quando falei ao grupo que o dia de hoje ia ser maioritariamente estrada, não referi um pormenor importante. A travessia não tinha dias fáceis, as altitudes dos Cols de hoje não eram desmedidas mas tinham pendentes capazes de nos colar a roda à estrada. Nos meus apontamentos, tinha como notas importantes ser uma etapa solitária, não ter pontos de abastecimento e o local de destino ser escasso na oferta de serviços. Foi necessário irmos abastecer na localidade seguinte bem fora da nossa rota.

Enquanto tomávamos o pequeno-almoço numa mesa que montámos debaixo do telheiro do clube de rugby de Bedous, decidimos, por precaução, levar mantimentos montanha acima. Ao nosso nível só mesmo mais montanhas, as nuvens pairavam por ali a tapar-nos a vista que tanto merecíamos.


O nome Calamity Jane Saloon soa bem, especialmente se for um camping com acesso privado ao rio com água fresquinha, boa para um banho de crioterapia.



E13 Licq Atherey-St Jean Pied de Port

Mais uma bela lição de humildade que a bicicleta nos ofereceu hoje. Os 8 quilómetros que nos separavam do Col de Bagargi - tirando os troços em que tivemos de puxar a bicicleta - foram provavelmente os quilómetros cicláveis mais difíceis que nos surgiram até agora pela frente. As pendentes chegavam aos 13%, as escarpas cobertas de vegetação rasteira de nada servia contra o feroz calor que parecia aumentar a cada curva e contracurva.


É nos Chalets de Iraty que temos o nosso momento de café e bolachas. A água está ao lume e as camisolas estão penduradas a secar. Começam os grandes horizontes e o caminho que cruza as cristas permite que a nossa visão abrace cenários titânicos. Oiço comentar que já nem vale a pena tirar fotografias porque é tudo tão idílico que não se consegue escolher.



Estamos longe das muralhas de S.Jean Pied de Port quando nos surge um dos pontos mais bonitos da travessia. Uma incrível descida que nos faz baixar 900mts de desnível em 11kms. Aquela gravilha junto das curvas em cotovelo ainda hoje me faz arrepiar.


A pele de galinha continua quando cruzamos as portas da vila, estas pedras e o ar que aqui se respira é familiar a quem já pisou este local por diversas vezes.


E14 S.Jean-Ainhoa-Hendaya-Irun

Ao contrário da aventura que está prestes a terminar, o dia de hoje parecia não ter fim. Resumindo, pois estas horas davam conteúdo para encher todas as páginas que escrevi até aqui.
 Perdemos o Sud-Express, os bilhetes para o dia seguinte custaram quase 400€ e o albergue estava fechado há vários meses.
É 6f e ainda temos previsto 2 etapas até chegarmos a Irún para ingressar no Sud- Express no dia seguinte.


Não era só nas “terras altas” que o nevoeiro e a humidade eram intensos. No troço da GR-10 - um belo single-track entre legiões de fetos que cobriam toda a encosta - caía uma chuva miudinha. Não incomodava, mas obviamente que tornava mais perigosa a passagem por sulcos tão pronunciados com pedras escorregadias.
Antes de descermos a via-sacra para Ainhoa, surge um cenário sinistro digno de um filme de Hitchcock. Um cemitério. Cristo cruxificado lado a lado com as 2 personagens da história bíblica, as cruzes eram enormes e todas as pedras tinham símbolos gravados. Tudo banhado por gotículas de água e um manto denso.

A etapa tinha corrido bem, remanesciam muitas horas de luz pela frente. Surge então a ideia de apanharmos o comboio hoje. Num verdadeiro contra-relógio, seguimos em linha estrada fora.
Desde Hendaya carrego uma caixa de cartão para bicicleta. Ocupo quase meia faixa de rodagem, atrás de mim seguem os meus amigos a sinalizarem o movimento. É em Irún que embalamos as bicicletas quando nos dizem, a 5min. do comboio partir, que este estava completo
Incrédulos, vamos à bilheteira para assegurarmos reserva para o dia seguinte. Engoli em seco quando me apresenta o preço para um camarote. Pago e vamos todos beber uma cerveja para descontrair. Algo não bate certo, o preço do pack família para 4 lugares não é este valor. Novamente na bilheteira explicamos, reiteramos o que é anunciado no site da Refer/Renfe sobre o valor do camarote que rondaria os 250 €.
Resolvida esta questão, passámos á fase seguinte. Onde dormir? O albergue da juventude estava fechado há vários meses. Fizemos vários telefonemas, visitámos várias pensões, mas só às 23h acertámos na pensão/restaurante.
Deambulamos por Irún, comemos churros e chocolate quente, bebemos vinho com gasosa à refeição, mas estamos na estação bem antes da hora de partida do Sud-Express. Não queremos sobressaltos, basta-nos aqueles em que o trem irá pular até chegar ao fim da linha.
O Paulo fica no Oriente, o Pedro e eu seguimos para Santa-Apolónia onde desmanchamos caixas e montamos as bicicletas. Ele vai para Massamá a pedalar (diz-me que é para “desmoer”) e eu só tenho coragem para ir até ao Cais do Sodré.

P.S – Este é o comboio que pára em todas as estações. Vou quase sempre a olhar para lá das janelas e é em Algés que vejo a bicicleta do Pedro passar por mim. O homem ia mesmo com vontade de chegar a casa…

Epílogo

 
Podia plagiar Fernando Pessoa “O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão”.
Não sou poeta. Como ciclista, penso: o que são 900 quilómetros para o grande mundo em que vivemos? Nada, certamente. Sem ser um número de proporções cósmicas ou divinas, quando percorridos neste maciço montanhoso com o auxílio de uma bicicleta e muito esforço humano, coloca-me em perspectiva.
Somos seres minúsculos ou gigantes capazes de transpor qualquer obstáculo?