13 agosto 2010

Autonomia III- Ao encontro do Jacobeo pela Via Turonensis e Caminho do Norte

A bicicleta além de ser o meio de transporte mais utilizado no mundo, suporta com garantia até 10 vezes o seu peso.

Lá vou eu com a casa às costas... Fazer quase 2000 quilómetros.

Que a paixão me acompanhe.

INXALÁ















Prólogo.

A Voie do Tours também se chama Via Turonensis ou “Grand Chemin” proveniente de Paris. Ele segue pelo vale do rio Loire até ao país basco e passa por Orleans, Tours, Poitiers, Bordéus.

Durante 27dias fui guiado: pelas marcações da GR-655, por conchas, setas amarelas e satélite. Cheguei até Irun na fronteira espanhola para aí entroncar no Caminho do Norte que bordeja toda a costa do Mar Cantábrica


Paris - 15Ago10

Com este clima, devia ter trocado a bicicleta pelo chapéu de chuva. Os monumentos são uma excelente opção para começar a explorar o que Paris tem de melhor. No Louvre, um cartão de memória não chega para armazenar todas as fotografias que desejo tirar. Vou ocupando espaço no meu cérebro, mas, os estímulos são tantos que não é possível registar e processar tanta informação.

Para mim, turista, que me limitei a ir aos lugares comuns desta cidade, hoje foi um dia normal.




16Ago10 – Ficou prometido. Eu vim para pedalar. Haja o que houver…

Paris, cidade das luzes, do iluminismo, do conhecimento. Aqui tudo gira, flui e passa. É um bom sítio para pensar; é um bom sítio para tudo.

De facto, 350 kms de pistas cicláveis tornam tudo muito mais apetitoso. Olhando de cima do selim para as avenidas, nota-se a articulação com as ciclovias. Existe enquadramento, equilíbrio e a conjugação é perfeita, agradável e funciona. Ainda vai levar algum tempo para que Lisboa dê este salto civilizacional.

Apesar da cor neutra, a minha bicicleta de montanha ainda destoa em demasia com os demais velocípedes com que me cruzo. Para nós, “tugas”, é uma bicicleta topo de gama, ágil e bastante rápida para maratonas. Eu prefiro apetrecha-la com alforges, campainha e asssim, tenho um veículo capaz de me levar aonde eu quero ir.

Agora já não é um dia normal. Ando livremente a sentir a chuva na cara, os pés nos pedais e no en tanto, percebo que sou prisioneiro deste modo de vida porque necessito de dias assim para me sentir vivo.





17Ago10 – Passeio em Versailhes

Atravessar Paris longitudinalmente em bicicleta não é propriamente rápido. Não é preciso subir e descer passeios mas é necessário ter em atenção o trânsito que flui livremente nas suas boulevards.

Os parisienses não precisam de mudar de roupa para andarem de bicicleta, não precisam de ter uma desculpa, nem precisam de nenhum velocípede especial. Pedalam, tão simples quanto isso.

Onde há um gradeamento, há concerteza dezenas de bicicletas coladas a ele. Algumas têm 3 cadeados, outras, não têm rodas. As que ainda mantêm o esqueleto original são as citadinas da Velib (semelhantes às nossas bugas).

Em viagem, todos os dias almoço fora. Tento, sempre que possível, que seja num local especial. Fiz as sandes e lá fui eu até ao jardim.

Passo Bois de Boulogne, o grande pulmão da cidade, para chegar ao magestoso e ofuscante palácio de Versailhes onde, outrora, os seus portões permitiam a entrada a carruagens e animais e agora, proíbem a entrada de bicicletas. Até mesmo de mão dada. Não há respeito pelo sentimento. Não é por estes lados que se respira o l´amour?!



O dia estava a meio e era uma boa altura para almoçar. Vim de tão longe que não me conformava com a ideia de comer fora do jardim, nem de deixar a bike presa na rua. Para mim, ela vale mais que o palácio, essencialmente por aquilo que posso ver e ainda fazer com ela.
Indaguei no meu francês mágico a procura de uma solução. Havia, longe dali, um género de “porta dos fundos”. Foi o suficiente para ver a imensidão dos jardins do palácio, pedalar sobre eles e, acima de tudo, cumprir o meu destino daquele dia. Almoçar no jardim.



18Ago10 – Boissy La Rinére – 90 kms



Dizem que a França é o ponto de reunião de peregrinos de todo o mundo, mas eu ainda não vi nenhum.

Começo hoje oficialmente o Camiño após 2 meses sem apetite ciclístico.

Tudo começou depois da travessia dos Pirenéus quando alcancei um plateau psicológico que me conduziu a um beco sem saída. Senti que perdera o entusiasmo que sempre tivera pelo andar de bicicleta. O pedalar já não segregava a adrenalina que ajudava a motivar-me.

Algo mexeu comigo. Algo se perdeu. Toquei no vazio, pensava em tudo mas não fazia nada. No caminho, a minha atitude em relação às duas rodas conheceu um novo sentimento. A indiferença.

Para combater esta inércia e devolver-me à vida, I´m on the road again.

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A torre Saint-Jacques (séc. XVI, é um marco importante que invoca a passagem dos peregrinos vindos do norte e é, para mim, ponto de partida.

Sigo para a Catedral de Notre Dame (é a mais completa e magestosa de todas as catedrais góticas) onde simbolicamente começa a GR-655.

Atravesso os arredores de Paris sempre pelo interior de parques guiado pelas marcas desta grande rota que, ao contrário do que inicialmente pensava, não é só ciclovia. Até Etampes, as longas extensões de terra foram uma constante.

O primeiro dia do desafio só fica terminado quando encontrar um sítio low-cost para repousar.

Em França, os preços assemelham-se a uma ourivesaria. Os quartos podem custar em média 70€, e por isso, montei a tenda num local de caravanismo semi-abandonado.

Não sei o que surpreendeu mais os visitados. Terá sido o meu único género alimentício, uma sopa instantânea, ou o périplo que ando a empreender?

Acabei por ser convidado para o barbecue da comunidade. Eles falam francês, eu não. Eu falo outras línguas, eles não. Exprimimos emoções.

Estes são os tais momentos mágicos que não existem em nenhum pacote turístico.

19Ago10 – Blois – 150 kms

Vou em direcção a Orleans. O isolamento e a quietude do lugar transporta-me às planícies alentejanas. Aproximo-me do vale do Loire, um verdadeiro cartão postal, segundo toda a informação que recolhi e li.







Tenho o privilégio de sonhar com uma ideia e depois, acordar onde ela me levou.

Para os guias de viagem, o vale dos reis parece um planisfério de maravillas francesas. Nele, os nobres caçavam e polvilharam-no de castelos. Eu farto-me de pedalar mas a oferta tem sido pouco generosa. Aliás, as distâncias a vencer são tão grandes e monótonas que, na minha opinião, não se justifica a opção da GR-655 por Paris-Orleans-Tours. Fica no ar a dúvida se não seria melhor seguir por Chartes-Blois?






20Ago10 – Tours – 80 kms

Os cenários e as cidades junto das margens do rio Loire desabrocham e mostram todo o seu encanto. Multiplicam-se as indicações do Loire à velo e a quantidade de ciclistas que, seguindo percursos balizados, percorrem os caminhos em diversas direcções.




As fotografias que tiro em cada uma das cidades por onde passo, apenas ilustram pontos distantes no mapa. O importante revela-se quando as olhar e recuar no tempo para recordar aqueles locais de viagem, onde os ponteiros do relógio perderam a rigidez.

Em Tour só permitem ter acesso ao albergue às 17h00. Não tenho pressa, permaneço, algures, na relva a ler “o que todos procuram mas não existe nos mercados”. O vendedor de sonhos.

21Ago10 – Poitiers – 130 kms

Caramba!!! Que grande dose de loucura fazer isto tudo sozinho com distâncias a passarem da centena de quilómetros. É tudo muito igual; muito plano; muito isolado; muito longe. Para ter água, a maioria das vezes tenho de a pedir às pessoas junto de suas casas.

Não tenho memória de uma travessia assim. Amanhã as rodas vão parar de girar

22Ago10 – Poitiers – 20 kms

Em Poitiers, a Via Turonensis junta-se ao caminho dos peregrinos que vinham do Monte Saint Michel e o albergue é a base de actividades para um circuito de btt com o nome de Ville Nature. São 400kms de caminhos balizados. Eu vim preparado, para o caso de não estar satisfeito, com um track desta zona.

Não consigo manter o que escrevi (rodas vão parar de girar). O dever chama-me. É quase um apelo. Só me sinto digno da minha bicicleta se a utilizar para viajar. Avec velo, touts est proche.


23Ago10 – Aunay de Saintonge – 93 kms

Não tenho grandes novidades a acrescentar. Conjugo e reparto as longas horas de pedalar contínuo com a arte da contemplação por estas terras infinitas. Só tenho de agradecer tudo aquilo que vejo, e aceitar com humildade, o que a existência me oferece.


24Ago10 – Mirambeau – 120 kms

Memorável etapa patrocinada pela beleza dos trilhos juntamente com as povoações de S.Jean d´Angely, Douhet e a entrada em Saintes. Foi só seguir a GR-655.

Passei da observação à colheita de fruta. A natureza da-nos tudo aquilo que precisamos. Carregado de maçãs, peras e ameixas, já resisto melhor aos apelos sucessivos das inúmeras lojas Boulagerie e Patisserie que vou encontrando pelo caminho.

Como em todas as grandes cidades, também não foi fácil encontrar as indicações para sair de Saintes.

A magia do Camiño volta a surpreender. Ele consegue, a dezenas de metros de uma movimentada estrada macional, transparecer uma realidade tranquila onde nos sentimos em comunhão com a natureza.

Jantar com a família que me acolhe na – enorme – casa de turismo rural em Mirambeau, foi o ponto alto do dia de hoje.



25Ago10 – Bordéus – 110 kms

Adensa-se a região vinhateira. Bordeaux está a quatre vingt kms e as vinhas já estão em todas as direcções.

É agradável não ter pressa e poder apreciar, com a ajuda do sol e da vontade, o que os meus olhos e pernas alcançam.

Para mim, aquilo que é importante, não quero colocar no rodapé da minha história. Haja caminho para percorrer…



Mais uma grande descoberta após o coffee break da manhã. A ciclovia de Etauliers à citadelle de Blaye (património mundial da Unesco).

Tudo isto tem sido um sonho ou uma alucinação? Não sonho ser rico ou famoso. Quero apenas sair do conformismo.

Luther King preferia na chuva caminhar do que em casa se esconder. Preferia ser louco e feliz, do que em conformidade viver.

Sonhar e pedalar, ajudam-me a ir em busca desta essência.

Bordéus é outra cidade pensada para ciclistas. Uma enorme ciclovia rasga-a até ao centro histórico e desde aí tenho a noção que preciso fazer uma paragem de 24h.




26Ago10 – Bordéus – 20 kms

A circum-navegação a Bordéus é algo que me tem fascinado há medida que dobro cada esquina. Ruas generosas, apegadas de movimento; transportes urgentes tipo DHL feitos em triciclo; tudo muito moderno e cosmopolita, sempre com a bicicleta como imagem de fundo.

É caso para dizer “The future has two wheels and have seen it”. Lisboa, aburguesa-te novamente para ocuparmos a pedalar, os teus arrabaldes . Prometemos uma rodada ecológica de 0g C02 km.



27Ago10 – Onesse et Laharie – 120 kms

De Bordéus sigo para sul facilmente por ciclovias até Gradignan. As indicações da Via Turonensis têm novamente uma forte presença tornando o percurso mais agradável porque evitam eixos rodoviários de grande fluxo. As rectas intermináveis, vazias e sem ponto de interesse e abrigo, sujeitam-me a um desgaste excessivo para cumprir a etapa até Onesse et Laharie.


28Ago10 – Irun – 120 kms

Lesperon é a minha primeira paragem do dia. Preciso retemperar forças neste importante ponto de passagem de peregrinos desde a Idade Média. Chamam-lhe o oásis após as estepes estéreis da “Grande Lande”.

Há alguns séculos que é assim. Eu hoje, tive a mesma necessidade de colocar uma virgula no tempo. Ia desviar-me do Caminho de Santiago e seguiria durante muito tempo estradas com muito tráfego. Estava a mentalizar-me.

A coordinheira Pirenaica está à minha frente. Limito-me a olhar e a recordar onde, há uns meses atràs, fui muito feliz a pedalar.

O Caminho do Norte começa depois de amanhã e a dificuldade também. Já não pedalarei sozinho. Esta é a minha certeza


[b] Caminho do Norte[/b]
30Ago Deba-75km
Chamam-lhe o Caminho do Norte mas podia ser perfeitamente também o Caminho da Costa tal é a sua proximidade com o mar cantábrico.

Não se pode dizer que esteja bem sinalizado e que seja tudo ciclável. É frequente recorrer às informações dos habitantes locais para evitar troços extremamente desagradáveis que, segundo eles, só de bicicleta às costas.

Neste dia o trajecto faz-nos alternar entre passeios ribeirinhos e incursões que atalham pela montanha.




31Ago Lezama-75km

As rodas giraram em partes iguais por troços de alcatrão e terra batida. Este último era impraticável e por isso vimo-nos na necessidade de recorrer às alternativas propostas pelo road-book. Mesmo assim, as rampas e os caminhos empedrados têm-nos acompanhado por longos períodos. A beleza da natureza é singular.



01Set Islares-75km

Mais um ano de vida, mais um dia a pedalar. É bom presságio, sigo à risca a minha máxima.

Os frequentes nós das auto-estradas, a cordilheira cantábrica e o mar deixam poucas opções de escolha. A estrada era uma delas.

A cidade de Bilbao e Portucalete têm uma bela ciclovia que permite sair deste concentrado urbano com facilidade.

A intenção de ficar em Castro Urdiales saiu gorada. Foi preciso mais uma hora de caminho para alcançar outro albergue sempre com a esperança de não estar lotado.



02 Set Santander-75km

O caminho que escolhemos ia direitinho ao mar e a beleza é inerente a qualquer local que seja banhado pela água.

Os transportes fluviais nestas paragens são um meio de locomoção usado com frequência.

Foi de barco que tocámos as margens de Santander. Para aqui tinha colocado grandes expectativas mas esta cidade não cativou.


03 Set S.Vicente de La Barquera - 87km

Longos vales e estradas secundárias foram por hoje, tudo o que tenho para contar.

Sabe bem descer para o local final de destino. S.Vicente de La Barquera parece um bom porto de abrigo.


04 Set S.Esteban de Leces 87 km - 05 Set Gijon - 70km

Estas são as terras das Astúrias que eu conheço. Os Picos de Europa perfilam ao nosso lado e só nos afastamos deles para rodearmos a costa por single-tracks.

Nesta etapa decide-se uma nova direcção. Flectir para Oviedo para fazer o Caminho Primitivo ou continuar para Gijon mais a norte.



06 Set Soto de Luiña 70 km

Avilés revela-se extremamente urbano e industrializado. Não há escape às faixas negras, todavia, se seguirmos as setas amarelas, é garantido o sucesso para bons momentos em comunhão com grandes espaços verdes.


07 Set La Caridad 78 km (Local onde a senhora guardou as bikes na sua garagem)

Neste dia a nossa maior preocupação era evitar os fortes aguaceiros que caíam com grande intensidade.




08 Set Gontan 78 km

Partimos em direcção de Ribadeo, o objectivo é sermos fiéis ao mar cantábrico pela última vez. Desde aqui o itinerário esquece o mar e segue para Mondoñedo.

O tempo tornava-se escasso e as condições atmosféricas adversas, adivinhava-se um final de etapa tardio e complicado, no entanto, parar para substituir o disco (que foi lapidado até se partir), provar as tartes mais famosas de Espanha e ficar sem alojamento, pertence às lições que o Caminho nos ensina.



09 Set Sobrado dos Monxes 83 km

Os recantos afastados de qualquer circuito turístico com paisagens luxuriantes e lugares habitados aqui e acolá, continuavam a multiplicar-se. Num momento, numa curva do caminho, 2 pessoas vivem ali.

Comento com os meus companheiros que é impossível ser-se indiferente ao mundo que lhes passa diante da porta. Pessoas de todas as latitudes passam por ali. Talvez deixem 1 sorriso ou talvez levem uma bela recordação como eu.

Naquele momento percebo que o Caminho de Santiago não foi apenas a internet na Idade Média.